domingo, 27 de julho de 2014

Bendita entre todas as mulheres

Por Maria Clara Bingemer
Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Quem é essa que a Igreja proclama e venera como bendita entre todas as mulheres e cheia de graça? O que ela nos diz sobre o mistério de Deus, da vida, do ser humano homem e mulher?
A teologia hoje trata de fazer uma releitura da Maria de acordo com as exigências de nosso tempo. Essa releitura dá testemunho, sobretudo, do momento privilegiado que vive a humanidade inteira com o despertar da consciência histórica da mulher.
Com relação à interpretação sobre o mistério de Maria de Nazaré, portanto, há que ressaltar três pontos:
a) O povo tem imenso carinho por Maria, a mãe de Jesus. E este amor expressa o clamor em busca de socorro, qualquer que este seja. Isto parece transparecer a espiritualidade mariana do povo mais simples. Maria é a esperança, a mãe, a protetora, aquela que não abandona seus filhos.
b) Existe hoje, igualmente, uma maneira diferente e própria de ler os textos bíblicos. Os textos que falam d Maria são muito poucos na tradição neotestamentaria. Porém, cada época histórica parece construir, a partir deles, uma imagem de Maria e de sua atuação histórica passada e presente.
c) O conceito de Reino de Deus é essencial para essa hermenêutica. Vai além da pessoa de Jesus e afeta a totalidade de seu movimento, do qual participavam homens e mulheres de forma ativa. Entre eles está incluída María, essa judia que é mãe de Jesus, com sua paixão pelos pobres e pela justiça de Deus, com sua memória perigosa e subversiva.
Nesta perspectiva hermenêutica, Maria não é somente a encantada e suave mãe de Jesus, mas também e, sobretudo, trabalhadora na colheita do Reino, membro ativo do movimento dos pobres criado por seu filho Jesus de Nazaré.
Mesmo os dogmas marianos devem ser pensados à luz dos pressupostos hermenêuticos anteriormente descritos e refletidos em chave eclesiástica e pastoral. E o que nos dizem estes dogmas?
1. Maria é mãe de Deus, figura e símbolo do povo que crê e experimenta essa chegada de Deus que agora pertence à raça humana Esta mesma que chamamos Mãe e Nossa Senhora é, porém a pobre e obscura mulher de Nazaré, mãe do carpinteiro subversivo e condenado à morte. Depois do título de glória e as luxuosas imagens com que a piedade tradicional a representa, Maria ensina a maternidade como serviço, inspiração para a Igreja que deseja ser servidora dos pobres, para quem a encarnação de Jesus em Maria traz a boa nova da liberação.
2. Maria é virgem, não de um ponto de vista moralizante e idealizado. Trata-se, ao invés, da glória de Deus onipotente que se manifesta naquilo que é pobre, impotente e desprezado aos olhos do mundo. A preferência de Deus pelos pobres se torna clara e explícita ao encarnar-se ele mesmo no seio de uma virgem, inserindo-se na linha de serviço dos pobres de Yahvé.
3. Maria é Imaculada e isso é garantia de que a utopia de Jesus é realizável nesta pobre terra. A Imaculada Concepção venerada nos altares é a pobre Maria de Nazaré, que leva sobre si a confirmação das preferências de Deus pelos mais humildes, pequenos e oprimidos. O assim chamado «privilégio Mariano» é, na verdade, o privilégio dos pobres.
4. Maria é Assunta aos céus e assim a humanidade e, muito especialmente, a mulher, têm a dignidade de sua condição reconhecida e assegurada pelo criador. A mulher que deu à luz em um estábulo, entre animais, que teve o coração transpassado por uma espada de dor, que compartilhou a pobreza, a humilhação, a perseguição e a morte violenta de seu Filho, que esteve a seu lado ao pé da cruz, a mãe do condenado, foi exaltada. É a culminação gloriosa do mistério das preferências de Deus por aquilo que é pobre, pequeno e desamparado neste mundo para fazer brilhar ali sua presença e sua glória.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Reze assim, não reze assim



Oração. A catequese deste domingo volta ao tema da oração. Devemos rezar sempre e sem cessar, ensinava o Senhor no domingo passado. Devemos rezar de forma despojada e humilde, ensina o Senhor neste domingo. Dois homens foram rezar ao templo. Entraram ambos, um até ao Santíssimo; outro até à porta. Um entrou cheio de si, o outro sentia que nada valia. Um entrou convencido que era dono do Céu, o outro sabedor que nem para o Céu deveria olhar. Porém, o Céu oferece-se a quem quer, não a quem se quer seu dono.

REZE ASSIM

Bom dia, Senhor!
Eis-me, não sei como, mais uma vez em Tua casa.
Venho talvez por inércia; entro talvez por entrar.
A verdade, porém, é que só encontro descanso
debaixo das Tuas telhas.
Tu sabes que estou aqui
como se não tivesse mais para onde ir.
Eu só quero ficar junto de Ti,
mesmo se muitos me dizem ‘Vem para aqui!’.
Eu não mereço entrar, não mereço achegar-me.
Não mereço, mas é só aqui que eu encontro paz,
a paz que nem o sono da noite me traz.
Quisera, Senhor, nada valer para alguém,
estar simplesmente aqui,
mesmo duvidando se mereço e se me aceitas.
Raras são as noites em que o sono me refresca
e dá descanso à minha peleja.
Raras são as noites de lua bem alta e atenta
em que aqui não venha em penitência.
Ah, Senhor, Senhor,
nada mais me resta da minha inocência,
da minha abastada ciência
e por isso hei-de aceitar que me acolhes
ainda que me olhes com olhos que não sei.

Porque a vergonha é o meu manto,
e a pena o meu pranto, a Ti, meu Santo,
eu não me atrevo a olhar.

Cansado que sou não sei que diga,
embora uma ideia me persiga de que Tu, Senhor,
só Tu, Senhor, sabes aguardar quem tão a jeito,
quem tão pecador a eito se faz tardar.

Algo, porém, me diz ao fundo da alma,
que toda esta paz e esta calma que não mereço
são o átrio do teu amor em responso
a tantos pecados de que eu não me esqueço.

Porque, Senhor, és assim?
Porque me forças a reconhecer que és bom,
quando sei que nada valho, que me enganei,
que perdi, que tardei, que me assustei e fugi?

Porque és assim e me obrigas a confiar?
Porque me obrigas a erguer se me afeiçoei à lama?

Do que me deste nada mais tenho que lágrimas,
que aprendi a chorar com a Mãe ao perto.
São-te familiares,
aceita-as até que o mar chegue ao deserto.

Aceita-as, nada mais tenho para Ti.
E deixa-me descansar aqui.
Amen.

NÃO REZE ASSIM

Meu Senhor e meu Deus,
meu bom Pai, Altíssimo Senhor!

As horas do meu dia são demasiado curtas.
Porém, a lufa-lufa jamais me impediria
de aqui vir para Vos louvar e agradecer.

É certo que não gosto do cheiro desta igreja,
que acolhe gente sem princípios
de higiene.

Compreendereis, Senhor, que antes de vir
tive de passar pela feira e pela loja
para controlar os empregados
desassossegados, exigentes e mandriões.

Foi por isso que me atrasei
e agora tenho de aguentar o cheiro desse pedinte
que se encontra bem atrás de mim.

(Desculpa, Senhor, mas, coisa banal,
deveriam ser obrigados a tomar banho...,
porque, enfim, como se pode vir
à Vossa Santa Presença cheirando mal?)

Para Vós, Senhor,
(Já eu o aprendi da minha santa mãe,
que Vós tendes de ter em justo descanso!),
para Vós devemos sempre reservar o melhor:
os melhores ideias, os pensamentos puros,
a melhor cara, as melhores horas do dia!

Sabereis que Vos dou sempre o melhor,
porque sei que retribuis com justiça.

Mas aqui em baixo quisera eu já justiça justa
para esses calaceiros, chupistas e mandriões, 
esses sarapintas cheirando mal à minha volta.

E agora, Senhor, urge deixar-Vos:
O tempo é curto e devo ainda fechar a caixa.
Amen.


Chama do Carmo I NS 200 I Outubro 27 2013

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O perfume



Espírito Santo. A Igreja tem muita história: vinte séculos de história de mãos dadas com Deus pelos caminhos do mundo ao encontro de todos os povos e culturas. E dentro da história da Igreja para o mundo com Deus existem muitas estórias. Surpreende-me sempre a fanfarronice da Igreja que, como a Pedro, brota da crença obscura de que bastam as forças próprias da razão e dos músculos para levar a Salvação até aos confins da Terra. E não bastam. Sempre que a Igreja operou dentro deste registo jamais a barca abandonou a barra ou então não chegou a bom porto: quero dizer, nesse caso, a Igreja anunciou-se mais a si mesma e menos a Cristo.
Precisamos, por isso e sempre, que brote no nosso interior o Espírito renovador do Ressuscitado.
Era domingo. A mãe de António entrou esbaforida no quarto do filho e gritou:
– Vamos, vamos filho! Hoje é domingo e levantas-te mais cedo. Já está na hora de ir para a igreja!
Mas, Tone, o filho, mal dormido e de mau humor, respondeu:
– Não me apetece ir à missa! Hoje fico na cama até ao meio dia!
– Mas que ideia, filho!, respondeu a mãe. Vamos, depressa!, continuava ela a gritar.
– Não me apetece ir à missa! Hoje fico na cama até ao meio dia! Eles não gostam de mim.
– Deixa-te de disparates, rematou a mãe. Vou dar--te duas razões para ires à missa: primeira, já tens mais de quarenta anos! Segunda, tu é que és o pároco!
Não sei se a historieta é verdadeira, mas se não o fôr é bem esgalhada. E ao mesmo tempo faz--me lembrar os Apóstolos. Os primeiros. Então não é que no domingo passado receberam a ordem do Senhor: Ide e anunciai o Evangelho?
Sim, é verdade que receberam. Receberam uma ordem de envio, um mandato para rasgar horizontes. Porém, mal se vêm sós, logo depois da ascensão de Jesus, prontamente se escondem e se encurralam no Cenáculo. Enfim, são covardes!  São o que são e já não é de agora que o são. Havia, aliás, poucos dias, que fugindo e abandonando-O, deixaram morrer o Mestre e Amigo. 
Após a Ressurreição eles, os Apóstolos, sabem a bom saber que a sua presença  testemunhal não é simpática para os demais judeus e sabem, é claro que sabem, que a notícia da Ressurreição não é fácil de aceitar e entender. Eles sabem que mal abram a boca vão ser apontados a dedo e, como não, até talvez amaldiçoados e escorraçados. E então calam--se. E anulam-se e trancam-se e acobardam-se. Eles sabem que falar do Crucificado é altamente perigoso, pois Ele fora recentemente sentenciado. Eles sabem que a religião é por vezes um potente sala dos espelhos que distorce a imagem mais pura; por isso, eles temem a incompreensão e a hostilidade.
Eles sabem e nós também. Nós também sabemos executar na perfeição a marcha à ré e o recuo atempado para a segurança das trincheiras do Cenáculo. E foi por isso que se deu o Pentecostes, a efusão do Espírito Santo: porque  os discípulos de Jesus temos medo!
Sim, porque existe medo existe Pentecostes! Sempre que existir medo existirá Pentecostes. Sempre que alguma vez algum discípulo de Jesus se sinta tolhido haverá Pentecostes!
O Pentecostes é o antídoto para o medo e para o sono, para a depressão e a preferência pelas portas fechadas!
Pentecostes é sempre! Porque sem a presença do Espírito Santo na sala do nosso coração nós continuaríamos sonolentos e depressivos, inactivos e inanes, medrosos e incapazes.
Pentecostes é a passagem das (falsas) seguranças do Cenáculo para os desafios dos múltiplos lugares, dos caminhos longos, das amplas planícies, dos rios caudalosos, das montanhas inexpugnáveis, das diferenças culturais. Pentecostes é abandonar o terreiro da Jerusalém local e fazermo-nos ao caminho até chegar a todas as línguas e culturas, a fim de proclamar-lhes o Evangelho da salvação com a força que o Espírito sopra em nós.
Por sinal, o Evangelho não é mensagem encriptada que só possa ser recebida por quem previamente possua o código; o Evangelho é palavra vivificante e universal dirigida ao arco-íris de todas as cores e raças.
O Espírito Santo é o substituto de Jesus. Na Sua ausência o Espírito maravilha os passos das nossas vidas e o caminhar das nossas comunidades. Ele derrama-se em nós com a suavidade de um perfume, cujas fragâncias inundam as divisões de uma casa.
O Espírito que animou Jesus é o mesmo que anima a nossa interioridade e nos encoraja, porque só a presença interior e o poder do Espírito Santo pode vivificar, dinamizar, libertar e divinizar a frieza e rudeza de todo o trabalho eclesial e humano. O Espírito Santo fala e (con)vive em segredo no nosso coração. 
Busquemo-lo em segredo.


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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nossa Senhora do Carmo e o Escapulário

História de Nossa Senhora do Carmo


Nossa Senhora do Carmo 
Nossa Senhora do Carmo tem origem no século XII, quando se um grupo de eremitas começou a se formar no monte Carmelo, na Palestina, terra Santa, iniciando um estilo de vida simples e pobre, ao lado da fonte de Elias, que se estendeu ao mundo todo.
A palavra Carmo, corresponde ao monte do Carmo ou monte Carmelo, em Israel, onde o profeta Elias se refugiou. A palavra carmo ou carmelo significa jardim.

História de Nossa Senhora do Carmo e os carmelitas

A ordem dos carmelitas venera com carinho o profeta Elias, que é seu patriarca, e a Virgem Maria, venerada com o título de Bem Aventurada Virgem do Carmo. Devido ao lugar, esse grupo foi chamado de carmelitas. Lá, esse grupo de eremitas construiu uma pequena capela dedicada a Senhora do Carmo, ou Nossa Senhora do Carmelo.
Posteriormente os carmelitas foram obrigados a ir para a Europa fugindo da perseguição dos muçulmanos. Aí se espalhou ainda mais a Ordem do Carmelo.

Devoção a Nossa Senhora do Carmo

Com a expulsão dos carmelitas de Israel, a devoção a Nossa Senhora do Carmo começou a se espalhar por toda a Europa. Também foi levada para a América Latina, logo no começo de sua colonização, passando a ser conhecida em todos os lugares. E não somente no Carmelo. Foram construídas várias igrejas, capelas e até catedrais dedicadas a Senhora do Carmo.

Aparição de Nossa Senhora do Carmo a São Simão

São Simão era um dos mais piedosos carmelitas que vivia na Inglaterra. Vendo a Ordem dos Carmelitas ser perseguida até estar prestes a ser eliminada da face da terra, ele sofria muito e pedia socorro a Nossa Senhora do Carmo.
Sua oração, que os carmelitas usam até hoje, foi a seguinte: Flor do Carmelo, vide florida. Esplendor do Céu. Virgem Mãe incomparável. Doce Mãe, mas sempre virgem. Sede propícia aos carmelitas. Ó Estrela do mar.
Então Maria Santíssima, rodeada de anjos, apareceu para São Simão, entregou-lhe o Escapulário e lhe disse: Recebe, meu filho muito amado, este escapulário de tua ordem, sinal do meu amor, privilégio para ti e para todos os carmelitas. Quem com ele morrer não se perderá. Eis aqui um sinal  da minha aliança, salvação nos perigos, aliança de paz e amor eterno. A partir desse milagre, o escapulário passou a fazer parte do hábito dos carmelitas.

Milagre de Nossa Senhora do Carmo

A partir da aparição de Nossa Senhora do Carmo a São Simão, a Ordem do Carmelo começou a florescer na Europa e em vários lugares do mundo, permanecendo firme até os dias de hoje.

O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, tradição do Carmelo

A palavra escapulário, vem do latim, escápula, que significa  armadura, proteção. O escapulário é uma forma de devoção a Maria Santíssima. O uso do escapulário é um sinal de confiança em Nossa Senhora do Carmo. A pessoa que o usa, é coberta com a proteção e as graças da Virgem Do Carmo.
O escapulário, segundo o Concilio do Vaticano II é um Sacramental, um sinal sagrado, obtendo efeitos de proteção daIgreja Católica. É uma realidade visível que nos conduz a Deus. Santa Tereza dizia que: portar o escapulário, era estar vestida com o hábito de Nossa Senhora.

Oração a Nossa Senhora do Carmo

Senhora do Carmo, Rainha dos anjos, canal das mais ternas mercês de Deus para com os homens. Refúgio e advogada dos pecadores, com confiança eu me prostro diante de vós, suplicando-vos que obtenhais a graça que necessito, ( pede-se a graça). Em reconhecimento, solenemente prometo recorrer a vós em todas as minhas dificuldades, sofrimentos e tentações, e farei de tudo que ao meu alcance estiver, a fim de induzir outros a amar-vos, reverenciar-vos e invocar-vos em todas as suas necessidades.
Agradeço as inúmeras bênçãos que tenho recebido de vossa  mercê e poderosa intercessão.
Continuai a ser meu escudo nos perigos, minha guia na vida e minha consolação na hora da morte. Amém. Nossa Senhora do Carmo, advogado dos pecadores mais abandonados, rogai pela alma do pecador mais abandonado do mundo. Ó Senhora, rogai por nós que recorremos a vós.

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

PORTADOR DO PERDÃO DE DEUS

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]
Voltemos de novo ao primeiro dos episódios antes relatados, o da batina enxovalhada de cal, porque essa história teve sequência. Enquanto os alunos da Academia Cicuéndez comentavam, espantados, o que tinha acontecido, outro professor lhes falou de um lado desconhecido da vida do Pe. Josemaria Escrivá que os deixou intrigados.
Contou-lhes que esse jovem sacerdote, intelectual de nível, formado em direito pela universidade de Saragoça, em teologia pela Pontifícia Universidade da mesma cidade, e doutorando em direito pela de Madrid, dedicava-se a atender centenas de pobres e doentes – os mais abandonados –, no barracos e cortiços dos subúrbios, e nos hospitais públicos, repletos de tuberculosos e de outros doentes incuráveis. E que, para isso, ia de uma ponta a outra de Madrid, andando a pé ou de bonde, durante horas e mais horas.
Os alunos, incrédulos, fizeram apostas sobre a veracidade dessa informação e resolveram segui-lo às escondidas. Assim o fizeram, como espiões improvisados, e foram parar um dia ao extremo norte da cidade, ao bairro de Tetuán de las Victorias; e outro dia, aos arrabaldes perdidos de Vallecas, no sul da capital.
Com os mais “largados” moralmente, mostrava-se afetuoso, pronto para levar-lhes, com o sacrifício que fosse preciso, o estímulo da reconciliação com Deus e com o próximo, o bálsamo da misericórdia.  Menciono a seguir, abreviadamente, três “casos” paradigmáticos.
O cigano esfaqueado
Um bom dia, foi chamado para atender um cigano gravemente ferido numa briga de navalha.
Encontrou-o moribundo no Hospital Geral.  Perguntou-lhe:
– “Como se sente?”
– “Muito mal, padre… Pode confessar-me?”
–  “Claro!”
Acabada a confissão, o sacerdote, com um sorriso afetuoso, animou-o: – “Jesus perdoou você. Não quer beijar o crucifixo?”
O cigano, com os olhos banhados de lágrimas, gritou: – “Com esta minha boca podre não posso beijar Nosso Senhor!”
E São Josemaria: “Mas se você vai beijá-lo daqui a pouco no céu, e, além disso, receberá dele aquele abraço!…”.
O irmão da meretriz
Um dia chegou-lhe um recado insólito. Uma mulher, que exercia a prostituição num bordel, tinha naquele local um irmão menor, gravemente doente, em perigo de falecer de um momento para outro, e sem possibilidade de locomover-se. O rapaz pediu um padre, e essa irmã – mulher de fé, ainda que de prática lastimável – tentou, angustiada, uma solução. Falaram-lhe daquele sacerdote que a todos acolhia, e pediu que o chamassem. O Pe. Josemaria prontificou-se a ir ali para atender o moribundo, mas avisou que só apareceria acompanhado por um ancião venerável, figura conhecida e  respeitada em Madrid – de fato foi junto com ele –, e com a condição de que, ao longo de todo aquele dia, não se cometesse naquela casa nenhuma ofensa de Deus. A dona prometeu e cumpriu, e o irmão faleceu na paz de Deus, com todos os Sacramentos, aconchegado pelas palavras de fé e esperança do padre.
O ídolo caído
No Hospital del Rey de Madrid, imenso, atulhado de doentes até nos corredores, as visitas do Pe. Josemaria eram constantes. Muitas vezes o acompanhavam vários daqueles jovens cativados pela sua mensagem de santidade e apostolado no meio do mundo. Atendiam os doentes, quase todos tuberculosos, limpavam-nos, cortavam-lhes as unhas e o cabelo, lavavam os vasos de noite…
Entre as dezenas de tuberculosos terminais que o pe. Escrivá atendeu, sem recear o contágio, deparou certa vez com uma mulher que tinha ocupado, por família e relações, um lugar muito elevado na vida social. Agora era um farrapo humano. Durante anos, caiu na maior devassidão e acabou doente e abandonada por todos. No derradeiro trecho da vida, a Providência lhe fez encontrar um padre que não se escandalizou com ela, mas que lhe estendeu a mão consagrada para perdoar e abençoar, como Cristo fez com a pecadora e com a mulher adúltera.
Ajudou-a a se reconciliar com Deus, com grande amor e confiança, a receber a Extrema-Unção e a oferecer como expiação pelos seus erros a própria dor da sua enfermidade. A mulher ficou tão feliz, com uma paz tão luminosa e serena, que Josemaria diria depois: «Eu sentia uma inveja louca… Aquela mulher repetia, saboreando, feliz: “Bendita seja a dor!”» , aquela dor que, purificando-a, lhe abria as portas do céu.
Trecho do livro de F.Faus,  “O homem que sabia perdoar” (Ed. Indaiá)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Santa Angêla

Santa Ângela era da Itália, nasceu de uma rica família da cidade de Folígno no ano de 1248. Por isso ela é chamada de Santa Ângela de Foligno. Desde cedo teve uma educação nobre, viveu em meio à fartura e aos prazeres mundanos. Seus pais não lhe deram uma educação cristã e pouco se preocupavam com a religião. Ângela herdou essa marca de paganismo. Viveu numa sociedade que valorizava demais as aparências e a vaidade.
Ângela casou-se muito nova com um cavaleiro de sua terra, teve muitos filhos e cuidava bem deles. Gostava de festas e divertimento, mas enxergava a vida além das realidades materiais. Gostava de roupas novas, joias, aparências tudo que uma vida mundana oferece. Mais tarde, seus pais se converteram e aconselhavam Santa Ângela a mudar de vida, mas ela não lhes dava ouvidos. Os pais passaram a rezar muito por ela.

História da conversão de Santa Ângela

Tudo parecia ir bem com Ângela, até que uma grande tragédia aconteceu em sua vida: dois de seus filhos morreram tragicamente. Então, as coisas das quais Santa Ângela gostava e nas quais colocava sua confiança, passaram a não ter mais sentido para ela.
Aparências? De que valem os elogios dos outros se seu coração está em pedaços? O que o mundo pode oferecer a alguém que tem perdas tão grandes? Assim, com o coração partido, cansada de viver de aparências e vendo que esse gosto pelas aparências a conduzia a um buraco cada vez maior, Ângela começou a olhar para si mesma à procura da verdade e de um sentido na vida.

Santa Ângela enfrenta a verdade

Ângela foi sincera em sua busca e Deus a atendeu. Mais tarde, em sua autobiografia, ela escreveu: Descontente de mim mesma, comecei a pensar seriamente em minha vida. Deus mostrou meus pecados, e minha alma encheu-se de pavor! Prevendo a possibilidade da minha condenação, tamanha era a minha vergonha, que não tive coragem de confessar todos os meus pecados. Assim, várias vezes ocorreu que recebi o Santo Sacramento em pecado. Vi minha consciência atormentada dia e noite. Pedi a Nossa Senhora para me conduzir a um sacerdote esclarecido para fazer minha confissão geral. Esta oração foi atendida, mas não senti nenhum amor a Deus, mas tanto mais arrependimento, dor, e vergonha dos meus pecados. Convertendo-se, Ângela ficou firme e fiel no caminho do amor e da santidade, santificando-se na dedicação à sua família. Alcançou a graça de um grande arrependimento de seus pecados e uma poderosa devoção a Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo.

Dificuldades na vida de Santa Ângela

Santa Ângela tinha reconstruído sua vida, agora com base no Evangelho e na fé em Deus. Porém, mais perdas aconteceriam: seu marido e filhos (todos) faleceram vítimas de doenças. O sofrimento foi muito grande, como é de se esperar. Porém, Ângela segurou na mão de Deus e procurou uma vida de oração.
Foi então que ela fez uma peregrinação a Assis. Lá, teve uma profunda experiência do amor de Deus e modificou radicalmente a sua vida. Vendeu seus bens e doou aos pobres, viveu uma vida recolhida em oração e, sempre que podia, ia a Assis em peregrinações.

Vida de obras e oração

Aos pés do crucifixo, Santa Ângela santificou sua viuvez, fez voto de castidade e pobreza e entrou para a Ordem Terceira de São Francisco. Tinha revelações e visões de Jesus. Sentiu em si mesma muitos sofrimentos da Cruz de Cristo. Passou também por grandes tentações. Estas, na verdade, eram o maior sofrimento de Santa Ângela. Foi fortemente tentada a abandonar a fé e a voltar ao materialismo de sua vida passada.
Santa Ângela, porém, com muita oração e sacrifício, superava todas as provações. Ela escreveu: Seria mais tolerável para mim sofrer todas as dores, suportar as torturas mais horrorosas dos mártires, que me ver exposta às tentações diabólicas contra a pureza. Ela orava e visitava os pobres ajudando material e espiritualmente a todos. Um dia ela teve um sonho comSão Francisco de Assis dizendo para ela ir para Assis. Lá, ela escreveu relatando vários acontecimentos místicos sobre a Paixão de Jesus Cristo. Em seu livro Experiências Espirituais narra que chegou a sentir todas as dores do flagelo de Jesus. Este livro passou a ser a base na formação das religiosas de seu tempo e rendeu a Santas Ângela o título de Mestra dos Teólogos.

Falecimento de Santa Ângela

Antes de morrer, Santa Ângela recebeu os sacramentos e ficou feliz de ficar livre de todas as tentações diabólicas. Ela faleceu no dia em que tinha profetizado. Foi no dia 4 de janeiro de 1309. Está enterrada na Igreja de São Francisco de Assis, em Folígno na Itália. Foi canonizada pelo Papa Inocêncio Xll.

Mensagem de Santa Ângela

Santa Ângela nos ensina que a vaidade, a confiança nas aparências, a busca dos elogios dos outros e dos prazeres mundanos são coisas que não dão sentido a uma vida humana. O ser humano é muito mais que tudo isso e precisa de muito mais que isso: precisa de verdade, de amor e de Jesus Cristo.

Oração a Santa Ângela

Ó Deus, Pai e Senhor nosso, a vida de Santa Ângela nos ensina o quão perigoso é confiar nas aparências, nos elogios vazios, na vaidade e nos bens materiais. Ela nos ensina também o quanto é agradável a Vós a conversão sincera do coração ao evangelho. Queremos deixar tudo o que em nossa vida é injustiça e egoísmo, tudo o que prejudica os outros a fim de conhecer-Vos melhor e servir-Vos através de nossos irmãos, sobretudo os mais necessitados. Santa Ângela, rogai por nós.
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História de Santa Clara

Santa Clara de Assis, (Chiara D’Offreducci), nasceu no ano de 1194, em Assis, Itália. De família rica, seu pai, Favarone Scifi, era conde. Sua mãe se chamava Hortolana Fiuni. Clara era neta e filha de fidalgos (pessoas da classe nobre). Sua família vivia em um palácio na cidade, tinha muitas propriedades e até um castelo.
Clara tinha dois irmãos e duas irmãs. Suas irmãs Catarina e Beatriz, mais tarde, iriam entrar para o convento junto com sua mãe, após esta ficar viúva. Quando Clara tinha por volta de doze anos, sua família vai morar em Corozano e depois vão para Perugia, refugiando-se de uma revolução.

Vida de Santa Clara

Clara desde jovem já tinha a fama de muito religiosa e recolhida. Aos 18 anos ela fugiu com uma amiga, Felipa de Guelfuccio, para encontrar São Francisco de Assis, na Porciúncula, (capelinha de Santa Maria dos Anjos, onde nasceu a ordem dos Franciscanos e a ordem de Santa Clara). Lá ela era esperada para fazer os primeiros votos e entrar no convento dos franciscanos.

Santa Clara de Assis, uma discípula de São Francisco de Assis.

O próprio São Francisco cortou os cabelos de Clara, sinal do voto de pobreza e exigência para que ela pudesse ser uma religiosa. Depois da cerimônia ela foi levada para o Mosteiro das Beneditinas. Santa Clara de Assis vendeu tudo, inclusive seu dote para o casamento e distribui aos pobres. Era uma exigência de São Francisco para poder entrar para a vida religiosa.
A família de Santa Clara de Assis tentou buscá-la, mas ela se recusou a voltar, mostrando para o seu tio Monaldo os cabelos cortados. Ele, então, desistiu de levá-la. Nisso, sua irmã Catarina, também foge para o convento aos 15 anos de idade. A família envia novamente o Tio Monaldo para busca-la à força. Monaldo amarra a moça e prepara-se para arrastá-la de volta para casa.
Clara não suporta ver o sofrimento da irmã e pede ao Pai Celeste que intervenha. Então a menina amarrada ficou tão pesada que ninguém conseguia movê-la. Monaldo, então, desistiu. Catarina entrou para o convento e recebeu o nome de Inês. Depois de ter passado pelo convento de Santo Ângelo de Panço, São Francisco leva Clara e suas seguidoras para o Santuário de São Damião, onde foram morar em definitivo.

Milagre de Santa Clara de Assis

Por causa da invasão muçulmana, a região de Assis passou necessidades. Tanto que, certa vez, as irmãs, que já eram mais de 50, não tinham o que comer. Então a irmã cozinheira chega desesperada e diz a Santa Clara de Assis que havia somente um pão na cozinha.
Santa Clara diz a ela: confie em Deus e divida o pão em 50 pedaços. A irmã cozinheira, mesmo sem entender, obedece. Então, de repente, dezenas de pães aparecem na cozinha e as irmãs conseguem se sustentar por vários dias.

Imagem de Santa Clara de Assis

Pela intercessão de Santa Clara muitos milagres se realizaram quando ela ainda era viva e também depois de seu falecimento. Um dos mais expressivos foi quando os sarracenos (muçulmanos) invadiram Assis e tentaram entrar no convento das Clarissas.
Santa Clara pegou o ostensório com o Santíssimo Sacramento e disse aos invasores que Cristo era mais forte que todos eles. Então, inexplicavelmente, todos, tomados de grande medo, fugiram sem saquear o convento. Por isso, Santa Clara é representada com suas vestes marrons segurando o ostensório.

A padroeira da Televisão

Um ano antes de Santa Clara de Assis falecer, em 11 de agosto de 1253, ela queria muito ir a uma missa na Igreja de São Francisco (já falecido). Não tendo condições de ir por estar doente, ela entrou em oração e conseguiu assistir toda a celebração de sua cama em seu quarto no convento.
Segundo seus relatos, a  Missa aparecia para ela como que projetada na parede de seu humilde quarto.  Santa Clara conseguiu ver e ouvir toda a celebração sem sair de sua cama. O fato foi confirmado quando Santa clara de Assis contou fatos acontecidos na missa, detalhando palavras do sermão do celebrante. Mais tarde, várias pessoas que estiveram na missa confirmaram que o que Santa Clara narrou, de fato aconteceram.
Assim, pelo fato de Santa clara ter assistido a uma celebração à distância, em 14 de fevereiro de 1958, o Papa Pio XIIproclamou oficialmente Santa Clara de Assis como a padroeira da televisão.

O legado de Santa Clara de Assis

Santa Clara de Assis é a fundadora das Clarissas, (antes chamadas de senhoras pobres), com conventos espalhados por vários lugares da Europa e uma espiritualidade voltada para a pobreza, a oração e a ajuda aos mais necessitados.
Ela escreveu a Regra para as mulheres religiosas, (forma de vida), a regra de viver o mistério de Jesus Cristo de acordo com as propostas de São Francisco de Assis. Regra depois aprovada pela Papa. Ela foi o lado feminino dos franciscanos e as irmãs Clarissas permanecem até hoje.

Falecimento

Santa Clarade Assis morreu em Assis no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade. Um dia antes de sua morte ela recebeu a visita do Papa Inocencio lV, que lhe entregou a Regra escrita por ela aprovada e aplicada a todas as monjas.
Na hora de sua morte ela disse: Vá segura, minha alma, porque você tem uma boa escolha para o caminho. Vá, porque Aquele que a criou também a santificou. E, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com eterno amor. E Bendito sejais Vós, Senhor que me criastes.
O Papa mandou enterrá-la na Igreja de São Jorge, onde São Francisco estava enterrado. Em 1260 depois de construída a Basílica de Santa Clara, ao lado da Igreja de São Jorge seu corpo foi transladado com todas as honras para lá.

Canonização de Santa Clara de Assis

Sua canonização foi oficializada pelo Papa Alexandre lV, no ano de 1255, dois anos após sua morte. Santa Clara de Assis é representada com uma roupa marrom e touca branca, com uma custódia com o Santíssimo sacramento.

Oração a Santa Clara de Assis

Ó maravilhosa clareza e abençoada  Clara.
Em vida, ela brilhou para alguns, após a morte, ela brilha para todo mundo.
Na terra ela era uma luz clara. Agora está no céu como sol brilhante.
Ó quão grande a veemência do brilho dessa clareza.
Na terra a luz era realmente mantida dentro das paredes da clausura, ainda derramado de seus raios brilhantes. Amém. 
http://www.cruzterrasanta.com.br/historia/santa-clara

Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.

Ó Deus, único na Santíssima Trindade, quero amar-Vos como nenhuma alma Vos adorou. E, embora seja por demais miserável e pequenina, lancei bem fundo a âncora da minha confiança no abismo da Vossa misericórdia, ó meu Deus e Criador! Apesar da minha extrema miséria, nada receio, mas tenho esperança de Vos cantar eternamente o hino de louvor de glória.
Que nenhuma alma, por mais miserável que seja, caia em dúvida: enquanto viver, qualquer uma pode atingir uma grande santidade, tão grande é o poder da graça divina. Depende apenas de nós não nos opormos à ação de Deus.
Fonte: Santa Faustina Kowalska (1905-1938), religiosa, Diário, § 283

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Espírito Santo e Maria

O mistério de Maria é inseparável do mistério do Espírito Santo. Mais: dele depende. O Apocalipse fala de uma mulher vestida de sol (12,1). Esse sol é o Espírito Santo, que a enriqueceu de todas as graças desde quando o Pai a escolheu para ser a mãe de seu Filho. E quando, cheia de graça, chegada a plenitude dos tempos (Gl 4,4), ela deveria conceber Jesus, é o Espírito Santo que a fecunda, como rezamos no Credo: "O Filho unigênito de Deus ... por nós e para nossa salvação desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria". 

Revestida de sol, coberta pelo Espírito Santo, Maria tornou-se, no dizer de São Bernardo, "um abismo de luz, gestando o verdadeiro Deus, Deus e homem ao mesmo tempo" e, diante desse fato, observa ainda São Bernardo, "até o olho angélico fica ofuscado com a potência de tal fulgor". 

Sol e luz são figuras para expressar um fato: Maria, senhora de todas as bênçãos, concebe o Filho de Deus, por obra e graça do Espírito Santo, e é associada para sempre à obra redentora do Cristo e à missão do Espírito Santo Paráclito na história da salvação. Afirma o Evangelista Lucas que, à pergunta de Maria como seria possível conceber, se ela não conhecia homem algum, o anjo lhe garantiu: "O Espírito Santo descerá sobre ti" (Lc 1,15). Comenta o Catecismo: "A missão do Espírito Santo está sempre conjugada e ordenada ao Filho. O Espírito Santo é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e fecundá-lo divinamente, ele que é 'o Senhor que dá a Vida', fazendo com que ela conceba o Filho Eterno do Pai em uma humanidade proveniente da sua" (484-485). 

Para expressar essa unidade de mistérios entre Maria e o Espírito Santo, os teólogos não hesitam em chamar Maria de Esposa do Espírito Santo. Assim, São Francisco, na antífona que compôs para o Ofício da Paixão do Senhor, reza: "Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a vós, serva do Altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe do nosso Santíssimo Senhor Jesus Cristo, Esposa do Espírito Santo". 

A festa litúrgica, que celebra a encarnação de Jesus, chamada "Solenidade da Anunciação do Senhor" (25 de março), une estreitamente Jesus, Maria e o Espírito Santo. Jesus é a razão de ser de todos os privilégios e da própria missão de Maria. O Espírito Santo consagra Maria, fecunda-a e, ao mesmo tempo une-se à missão salvadora de Jesus, tornando-o o Cristo, o Ungido de Deus. Vários momentos da vida terrena de Jesus mostram-no cheio do Espírito Santo (Lc 4,1; Jo 1,33), movido pelo Espírito Santo (Lc 4,18) e tendo o Espírito Santo como testemunha de sua messianidade e de sua doutrina (Lc 12,12; Jo 14,26; 16,13). 

Ao dobrarmos os joelhos diante do mistério da encarnação, adoramos a Trindade santa: o Pai que envia o Filho, o Filho que, permanecendo Deus, obedece e assume o corpo humano, o Espírito Santo, que possibilita a concepção imaculada de Jesus. Dentro desse mistério e protagonista dele encontra-se Maria, mulher como todas as mulheres, mas associada misteriosamente, através da maternidade divina, à missão redentora e santificadora do mundo. "Por isso mesmo - escreve o Papa Pio IX na Bula de proclamação do dogma da Imaculada Conceição - Deus a cumulou, de maneira tão admirável, da abundância dos bens celestes do tesouro de sua divindade, mais que a todos os espíritos angelicais e todos os santos, de tal forma que ficaria absolutamente isenta de toda e qualquer mancha de pecado, podendo, assim, toda bela e perfeita, ostentar uma inocência e santidade tão abundantes, quais outras não se conhecem abaixo de Deus, e que pessoa alguma, além de Deus, jamais alcançaria, nem em espírito" (n. 2). 

Diante de Maria, envolta pela inaudita graça da maternidade divina, São Francisco, apaixonado pelo mistério da encarnação, prorrompe numa saudação em que, faltando palavras, busca com símbolos e comparações dizer o que lhe vai na mente e no coração: "Salve, Senhora santa, Rainha santíssima, Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja, eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó palácio do Senhor! Salve, ó tabernáculo do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó manto do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve ó Mãe do Senhor! Salve vós todas, ó santas virtudes derramadas, pela graça e iluminação do Espírito Santo, nos corações dos fiéis, transformando-os em fiéis servos de Deus". 

Sempre na tentativa de expressar com palavras humanas aquele momento único da encarnação do Senhor, há teólogos que se demoram em comparar a presença dinâmica do Espírito Santo na pessoa de Maria com o início da criação, quando, segundo o Gênesis (1,2) o Espírito de Deus soprava forte sobre as águas, ou seja, separava os elementos, ordenava-os, permitindo o nascimento da vida na terra. Rezamos no Credo: "Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida". Dar a vida é uma das atribuições do Espírito Santo. Na primeira criação, o Espírito como que fecundou a Natureza. Na segunda criação, inaugurada na Anunciação, o 

Espírito Santo não só fecundou Maria que, como mulher, concebeu e deu início a uma vida, mas também tornou-se autor daquele que mais tarde declarou explicitamente: "Eu sou a vida" (Jo 11,25; 14,6). 

Dar vida tornou-se sinônimo da missão de Jesus na terra. Por isso mesmo, toda a missão de Jesus está prenhe do Espírito Santo. Jesus foi preciso: "Eu vim para que todos tenham a vida em plenitude" (Jo 10,10). Esta plenitude da vida nos é dada pelo Espírito Santo, ligada ao mistério da Encarnação do Senhor, liga à própria vida do Filho de Deus na terra, obra e graça do Espírito Santo. Plenitude de vida aqui na terra e plenitude de vida na comunhão eterna com Deus. Aqui na terra, na vivência dos dons do Espírito Santo, que Maria recebeu em superabundância, particularmente a fé, a esperança e a caridade, que explodiram no seu "sim" ao plano de Deus e a mantiveram ao lado do Filho em todas as circunstâncias, inclusive ao pé da Cruz. Dos mesmos dons recebemos a coragem e a graça de acompanhar o Senhor Jesus e, na força do Espírito Santo, testemunhá-lo em nossa vida e em nossas ações e sermos pelo Senhor recebidos na morte e transportados à comunhão eterna com a Trindade. 

Há um outro momento na história da salvação, fundamental também ele, no qual a Escritura acentua a presença de Maria, envolta no Espírito Santo. Refiro-me a Pentecostes. Na encíclica Redemptoris Mater - sobre o papel de Maria na história e na vida da Igreja - escreveu o Papa João Paulo II: "Na economia redentora da graça, atuada sob a ação do Espírito Santo, existe uma correspondência singular entre o momento da Encarnação do Verbo e o momento do nascimento da Igreja. A pessoa que une estes dois momentos é Maria: Maria em Nazaré e Maria no Cenáculo de Jerusalém. ... Assim, aquela que está presente no mistério de 

Cristo como Mãe, torna-se - por vontade do Filho e por obra do Espírito Santo - presente no mistério da Igreja" (n. 24). 

Quando a Igreja declara que o Espírito Santo é sua alma (Lumen Gentium, 7), está reconhecendo nele a vida que a sustenta, a dinamiza, a santifica e lhe é garantia de fidelidade. Maria é o ícone da Igreja. Cheia do Espírito Santo, por sua obra e graça, ela deu à luz o Filho de Deus. A Igreja, sempre por obra e graça do Espírito Santo, gera os filhos para Deus. Se Maria foi verdadeiramente Mãe do Jesus histórico, concebido em Nazaré, nascido em Belém, crucificado e morto em Jerusalém, ela é também a verdadeira Mãe da Igreja, corpo místico do Cristo ressuscitado, vivo e presente até os confins do mundo e até o fim dos tempos. 

Transcrevo uma oração atribuída a Santo Ildefonso (+667): "Ó Virgem Imaculada, aquele que armou sua tenda em Ti, enriqueceu-Te com os sete dons de seu Santo Espírito, como sete pedras preciosas. Primeiro, ornou-Te com o dom da Sabedoria, em força do qual foste divinamente elevada ao Amor dos amores. Depois, deu-Te o dom do Intelecto, pelo qual subiste às culminâncias do esplendor hierárquico. O terceiro dom com que foste agraciada foi o do Conselho, que Te fez virgem prudente, atenta e perspicaz. O dom da Ciência que recebeste foi confirmado pelo próprio magistério de Teu Filho. O quinto dom, o da Fortaleza, o manifestaste na firme perseverança, na constância e no vigor contra as adversidades. O dom da Piedade fez-Te clemente, piedosa, compreensiva, porque tinhas infusa a caridade. Pelo sétimo dom, o Temor de Deus transpareceu na Tua vida simples e respeitosa diante da imensa majestade. Alcança-nos estes dons, ó Virgem três vezes bendita, Tu, que mereceste ser chamada o Sacrário do Espírito Santo. Amém.

Por Frei Clarêncio Neotti, O.F.M 
www.franciscanos.org.br

terça-feira, 1 de julho de 2014

Bem-vindo ao Estudando nos passos de Maria

''Quem são todas as mulheres, servos, senhores, príncipes, reis, monarcas da Terra comparados com a Virgem Maria que, nascida de descendência real (descendente do rei Davi) é, além disso, Mãe de Deus, a mulher mais sublime da Terra? Ela é, na cristandade inteira, o mais nobre tesouro depois de Cristo, a quem nunca poderemos exaltar bastante (nunca poderemos exaltar o suficiente), a mais nobre imperatriz e rainha, exaltada e bendita acima de toda a nobreza, com sabedoria e santidade.''
(Martinho Lutero, ''Comentário do Magnificat'', cf. escritora evangélica M. Basilea Schlink, revista ''Jesus vive e é o Senhor'').
Lendo as palavras acima, ditas por Martinho Lutero, o "reformador" protestante. Ficamos a nos perguntar quais as razões do tratamento dispensado pelo mesmo protestantismo a Nossa Senhora, Mãe de Deus. Haja vista, Lutero baniu a Igreja de sua confissão, mas não fez o mesmo com Maria, da qual se refere de forma devotada e amorosa em diversos de seus escritos:
''Por justiça teria sido necessário encomendar-lhe [para Maria] um carro de ouro e conduzi-la com quatro mil cavalos, tocando a trombeta diante da carruagem, anunciando: 'Aqui viaja a mulher bendita entre todas as mulheres, a soberana de todo o gênero humano'. Mas tudo isso foi silenciado; a pobre jovenzinha segue a pé, por um caminho tão longo e, apesar disso, é de fato a Mãe de Deus. Por isso não nos deveríamos admirar, se todos os montes tivessem pulado e dançado de alegria.'' (Martinho Lutero - Comentário do Magníficat).
O sentimento antimariano que presenciamos entre os protestantes não faz parte do verdadeiro ideal da Reforma, mas surgiu pelo falso receio de que o ''brilho'' de Maria pudesse sombrear ou apagar a verdadeira Luz, que é Jesus Cristo. Graças a Deus, hoje podemos enxergar mudanças em alguns fiéis e teólogos evangélicos, reconhecendo o verdadeiro sentido e valor da Santa Mãe de Deus, tal como defende a Igreja Católica. Mas essa mudança ainda custa a se fazer sentir no nosso dia-a-dia.
O presente e-book (livro eletrônico), versa justamente sobre as contestações suscitadas a respeito da figura de Maria na história e na Vida da Igreja universal. Contestações que muitas vezes beiram o absurdo quando notamos um comportamento notadamente antimariano, onde se chega a "demonizar" a própria Mãe de Jesus, nosso Salvador. Outrossim, tais contestações são apresentadas de forma aparentemente fundamentada, com diversas citações bíblicas escolhidas convenientemente, com uma linguagem extremamente sedutora em tentar provar o contrário daquilo que o próprio Deus sacramentou como verdade. Deus não precisava de Maria, quis precisar. Não para qualquer tarefa, mas para ser a Mãe do Salvador de todos os homens, independentemente de credo desses últimos.
O autor do livro, o nosso jovem Carlão, nos conduz passo a passo, numa linguagem acessível e com uma objetividade notável, pelos caminhos desse estudar nos passos de Maria. Sua bem fundamentada resposta às proposições de um pastor protestante -  autor de um livro intitulado "Caminhando nos Passos de Maria" - se vê robustecida pelo claro objetivo de elucidar ao invés de confrontar, de corrigir com caridade ao invés de desqualificar.
Receber a caridosa oferta do Carlão para que seu "pequeno grande" livro fosse veiculado através do Portal Universo Católico, foi alvissareira. Numa comunicação posterior, o mesmo me informava que aguardava a aprovação eclesiástica  do livro, para que o mesmo me fosse remetido, o que despertou curiosidade.  Mas de posse do material prévio para publicação, devidamente autorizada por D. Alano Maria Pena (Arcebispo de Niteroi - RJ), a emoção primeira se verteu num estado de graça, de alguém que recebia uma benção especial. Um verdadeiro presente de Jesus e Nossa Senhora. Uma grata oportunidade de levar a tantos de meus irmãos católicos e especialmente aos irmãos evangélicos, uma obra que certamente os ajudará a elucidar muitas dúvidas, ou a desfazer-se de vários preconceitos.
''Não podemos reconhecer as bênçãos que nos trouxe Jesus, sem reconhecer ao mesmo tempo quão imensamente Deus honrou e enriqueceu Maria, ao escolhê-la para Mãe de Deus.'' (João Calvino, Comm. Sur l’Harm. Evang.,20)
Por fim, fica o meu convite a sua leitura. Você poderá solicitar do autor um exemplar impresso. Mas poderá também imprimir, copiar, enviar via e-mail aos seus amigos, tudo isso citando a fonte e o contato do autor. Seja bem vindo a esse estudo nos passos de Maria.

Elbson do Carmo

Webmaster Universo Católico