quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ela é nossa Mãe na Ordem da graça


Pela sua plena adesao a vontade do Pai, a obra redentora do Filho e a todas as moções do Espirito Santo, a Virgem Maria e para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Por isso, ela e membro eminente e inteiramente singular da Igrejaâ (533) e constitui mesmo a realização exemplar, o typus, da Igreja (534).
Mas o seu papel em relacao a Igreja e a toda a humanidade vai ainda mais longe. Ela cooperou de modo inteiramente singular, com a sua fé, a sua esperança e a sua ardente
caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. E, por essa razão, nossa Mãe, na ordem da graça (535).

Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalavel junto da Cruz, ate a consumação perpetua de todos os eleitos. De facto, depois de elevada ao céu, nao abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcancar-nos os dons da salvção eterna [...]. Por isso, a Virgem e invocada na Igreja com os titulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeiraâ (536).
Mas a função maternal de Maria para com os homens, de modo algum ofusca ou diminui a mediãção unica de Cristo, mas antes manifesta a sua eficacia. Com efeito, todo o
influxo salutar da Virgem santissima [...] deriva da abundancia dos meritos de Cristo, funda-se na sua mediacao e dela depende inteiramente, haurindo ai toda a sua eficaciaâ (537).
Efectivamente, nenhuma criatura pode ser equiparada ao Verbo Encarnado e Redentor; mas,assim como o sacerdocio de Cristo e participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma so, se difunde variamente pelos seres criados, assim tambem a mediacao unica do Redentor nao exclui, antes suscita nas criaturas, uma cooperacao variada, que participa dessa fonte unicaâ (538).

Catecismo da Igreja Católica 967-970

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Caminhos para entrar na vida eterna




Comentário ao Evangelho feito por S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia e de Constantinopla, doutor da Igreja.
 
Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variad os e diferentes,
mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas
faltas. "Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!" (Is 43,26). E é por
isso que o profeta dizia: "Eu disse: «confessarei os meus erros ao Senhor» e Vós perdoastes a culpa do meu pecado" (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e isso será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas, tem a vantagem de recear tornar a cair nelas...
Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos
inimigos, de dominar a nossa cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros,
porque é assim que obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas. "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós" (Mt 6,14).
Queres conhecer o terceiro ca minho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que tu farás do fundo do coração... O quarto caminho, é a esmola; ela tem uma força considerável e indizível... Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz. Temos como prova disso o publicano que não podia proclamar as suas boas acções, mas que as substituiu todas pela oferta da sua humildade e entregou assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s).
Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão... Não fiques pois inactivo, mas em cada
dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis e tu não podes usar a tua miséria como desculpa.


http://www.montfort.org.br

O que é a verdadeira conversão?


Iniciamos o Tempo litúrgico da Quaresma, 40 dias que nos preparam para a celebração da Santa Páscoa; é um tempo de particular empenho no nosso caminho espiritual. O número 40 aparece várias vezes na Sagrada Escritura. Em particular, como sabemos, isso remete aos quarenta anos no qual o povo de Israel peregrinou no deserto: um longo período de formação para transformar o povo de Deus, mas também um longo período no qual a tentação de ser infiel à aliança com o Senhor estava sempre presente. Quarenta foram também os dias de caminho do profeta Elias para chegar ao Monte de Deus, Horeb; como também o período que Jesus passou no deserto antes de iniciar a sua vida pública e onde foi tentado pelo diabo. Nesta catequese gostaria de concentrar-me propriamente sobre este momento da vida terrena do Filho de Deus, que leremos no Evangelho do próximo Domingo. 


Antes de tudo, o deserto, onde Jesus se retira, é o lugar do silêncio, da pobreza, onde o homem é privado dos apoios materiais e se encontra diante da pergunta fundamental da existência, é convidado a ir ao essencial e por isto lhe é mais fácil encontrar Deus. Mas o deserto é também o lugar da morte, porque onde não tem água, não tem vida, e é o lugar da solidão, em que o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e lá é tentado a deixar a vida indicada por Deus Pai para seguir outras estradas mais fáceis e mundanas (cfr Lc 4,1-13). Assim, Ele assume as nossas tentações, leva consigo a nossa miséria, para vencer o maligno e abrir-nos o caminho para Deus, o caminho da conversão. 

Refletir sobre as tentações às quais Jesus é submetido no deserto é um convite para cada um de nós a responder a uma pergunta fundamental: o que conta verdadeiramente na nossa vida? Na primeira tentação, o diabo propõe a Jesus transformar uma pedra em pão para acabar com a fome. Jesus responde que o homem vive também de pão, mas não só de pão: sem uma resposta à fome de verdade, à fome de Deus, o homem não pode ser salvar (cfr vv. 3-4). Na segunda tentação, o diabo propõe a Jesus o caminho do poder: o conduz ao alto e lhe oferece o domínio do mundo; mas não é este o caminho de Deus: Jesus tem bem claro que não é o poder mundano que salva o mundo, mas o poder da cruz, da humildade, do amor (cfr vv. 5-8). Na terceira tentação, o diabo propõe a Jesus atirar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém e fazer-se salvar por Deus mediante os seus anjos, de cumprir, isso é, algo de sensacional para colocar à prova o próprio Deus; mas a resposta é que Deus não é um objeto ao qual impor as nossas condições: é o Senhor de tudo (cfr vv. 9-12). Qual é o núcleo das três tentações que sofre Jesus? É a proposta de manipular Deus, de usá-Lo para os próprios interesses, para a própria glória e o próprio sucesso. E também, em sua essência, de colocar a si mesmo no lugar de Deus, removendo-O da própria existência e fazendo-O parecer supérfluo. Cada um deveria perguntar-se então: que lugar tem Deus na minha vida? É Ele o Senhor ou sou eu? 

Superar a tentação de submeter Deus a si e aos próprios interesses ou de colocá-Lo em um canto e converter-se à justa ordem de prioridade, dar a Deus o primeiro lugar, é um caminho que cada cristão deve percorrer sempre de novo. “Converter-se”, um convite que escutamos muitas vezes na Quaresma, significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia concreta da vida; significa deixar que Deus nos transforme, parar de pensar que somos nós os únicos construtores da nossa existência; significa reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor, e somente “perdendo” a nossa vida Nele podemos ganhá-la. Isto exige trabalhar as nossas escolhas à luz da Palavra de Deus. Hoje não se pode mais ser cristãos como simples consequência do fato de viver em uma sociedade que tem raízes cristãs: também quem nasce de uma família cristã e é educado religiosamente deve, a cada dia, renovar a escolha de ser cristão, dar a Deus o primeiro lugar, diante das tentações que uma cultura secularizada lhe propõe continuamente, diante ao juízo crítico de muitos contemporâneos. 

As provas às quais a sociedade atual submete o cristão, na verdade, são tantas, e tocam a vida pessoal e social. Não é fácil ser fiel ao matrimônio cristão, praticar a misericórdia na vida cotidiana, dar espaço à oração e ao silêncio interior; não é fácil opor-se publicamente a escolhas que muitos adotam, como o aborto em caso de gravidez indesejada, a eutanásia em caso de doenças graves, ou a seleção de embriões para prevenir doenças hereditárias. A tentação de deixar de lado a própria fé está sempre presente e a conversão transforma-se uma resposta a Deus que deve ser confirmada muitas vezes na vida. 

Temos como exemplo e estímulo as grandes conversões como aquela de São Paulo a caminho de Damasco, ou de Santo Agostinho, mas também na nossa época de eclipses do sentido do sagrado, a graça de Deus está a serviço e realiza maravilhas na vida de tantas pessoas. O Senhor não se cansa de bater à porta dos homens em contexto sociais e culturais que parecem ser engolidos pela secularização, como aconteceu para o russo ortodoxo Pavel Florenskij. Depois de uma educação completamente agnóstica, a ponto de demonstrar uma real hostilidade para com os ensinamentos religiosos aprendidos na escola, o cientista Florenskij encontra-se a exclamar: “Não, não se pode viver sem Deus!”, e a mudar completamente a sua vida, a ponto de tornar-se monge. 

Penso também na figura de Etty Hillesum, uma jovem holandesa de origem judia que morreu em Auschwitz. Inicialmente distante de Deus, descobre-O olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: “Um poço muito profundo está dentro de mim. E Deus está naquele poço. Às vezes eu posso alcançá-lo, sempre mais a pedra e a areia o cobrem: então Deus está sepultado. É preciso de novo que o desenterrem” (Diário, 97). Na sua vida dispersa e inquieta, encontra Deus propriamente em meio à grande tragédia do século XX, o holocausto. Esta jovem frágil e insatisfeita, transfigurada pela fé, transforma-se em uma mulher cheia de amor e de paz interior, capaz de afirmar: “Vivo constantemente em intimidade com Deus”. 

A capacidade de contrapor-se às atrações ideológicas do seu tempo para escolher a busca da verdade e abrir-se à descoberta da fé é testemunhada por outra mulher do nosso tempo, a estadunidense Dorothy Day. Em sua autobiografia, confessa abertamente ter caído na tentação de resolver tudo com a política, aderindo à proposta marxista: “Queria ir com os manifestantes, ir à prisão, escrever, influenciar os outros e deixar o meu sonho ao mundo. Quanta ambição e quanta busca de mim mesma havia nisso tudo!”. O caminho para a fé em um ambiente tão secularizado era particularmente difícil, mas a própria Graça agiu, como ela mesma destaca: “É certo que eu ouvi muitas vezes a necessidade de ir à igreja, de ajoelhar-se, dobrar a cabeça em oração. Um instinto cego, poderia-se dizer, porque eu não estava consciente da oração. Mas ia, inseria-me na atmosfera de oração...”. Deus a conduziu a uma consciente adesão à Igreja, em uma vida dedicada aos despossuídos. 

Na nossa época não são poucas as conversões entendidas como o retorno de quem, depois de uma educação cristã talvez superficial, afastou-se por anos da fé e depois redescobre Cristo e o seu Evangelho. No Livro do Apocalipse, lemos: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (3, 20). O nosso homem interior deve preparar-se para ser visitado por Deus, e por isto não deve deixar-se invadir pelas ilusões, pelas aparências, pelas coisas materiais. 

Neste Tempo de Quaresma, no Ano da Fé, renovemos o nosso empenho no caminho de conversão, para superar a tendência de fechar-nos em nós mesmos e para dar, em vez disso, espaço a Deus, olhando com os seus olhos a realidade cotidiana. A alternativa entre o fechamento no nosso egoísmo e a abertura ao amor de Deus e dos outros, podemos dizer que corresponde à alternativa das tentações de Jesus: alternativa, isso é, entre poder humano e amor da Cruz, entre uma redenção vista somente no bem-estar material e uma redenção como obra de Deus, a quem damos o primado da existência. Converter-se significa não fechar-se na busca do próprio sucesso, do próprio prestígio, da própria posição, mas assegurar que a cada dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé em Deus e o amor tornem-se a coisa mais importante.



A Virgem Maria é onipresente?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

MISTÉRIO DA FÉ



O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue » (1 Cor 11, 23), instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue. As palavras do apóstolo Paulo recordam-nos as circunstâncias dramáticas em que nasceu a Eucaristia. Esta tem indelevelmente inscrito
nela o evento da paixão e morte do Senhor. Não é só a sua evocação, mas presença sacramental. É o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos.(9) Esta verdade está claramente expressa nas palavras com que o povo, no rito latino, responde à
proclamação « mistério da fé » feita pelo sacerdote: « Anunciamos, Senhor, a vossa morte ».
A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d'Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação. Esta não fica circunscrita no passado, pois « tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente ».(10)
Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e « realiza-se
também a obra da nossa redenção ».(11) Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado
o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes. Assim cada fiel pode tomar parte nela, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem
continuamente reafirmado com jubilosa gratidão por dom tão inestimável.(12) É esta verdade que desejo recordar mais uma vez, colocando-me convosco, meus queridos irmãos e irmãs, em adoração diante deste Mistério: mistério grande, mistério de
misericórdia. Que mais poderia Jesus ter feito por nós?Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até ao « extremo » (cf. Jo 13, 1), um amor sem medida.
12. Este aspecto de caridade universal do sacramento eucarístico está fundado nas próprias palavras do Salvador. Ao instituí-lo, não Se limitou a dizer « isto é o meu corpo »,
« isto é o meu sangue », mas acrescenta: « entregue por vós (...) derramado por vós »
(Lc 22, 19-20). Não se limitou a afirmar que o que lhes dava a comer e a beber era o seu corpo e o seu sangue, mas exprimiu também o seu valor sacrificial, tornando sacramentalmente presente o seu sacrifício, que algumas horas depois realizaria na cruz pela salvação de todos. « A Missa é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão do
corpo e sangue do Senhor ».(13)
A Igreja vive continuamente do sacrifício redentor, e tem acesso a ele não só através duma lembrança cheia de fé, mas também com um contato atual, porque este sacrifício volta a estar presente, perpetuando-se, sacramentalmente, em cada comunidade que o
oferece pela mão do ministro consagrado. Deste modo, a Eucaristia aplica aos homens de hoje a reconciliação obtida de uma vez para sempre por Cristo para humanidade de todos
os tempos. Com efeito, « o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício ».(14) Já o afirmava em palavras expressivas S. João Crisóstomo: « Nós oferecemos sempre o mesmo Cordeiro, e não um hoje e amanhã outro, mas sempre o
mesmo. Por este motivo, o sacrifício é sempre um só. [...] Também agora estamos a oferecer a mesma vítima que então foi oferecida e que jamais se exaurirá ».(15)
A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica.(16) O que se repete é a celebração memorial, a « exposição memorial » (memorialis demonstratio),(17)
de modo que o único e definitivo sacrifício redentor de Cristo se atualiza incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do mistério eucarístico não pode ser entendida como algo isolado, independente da cruz ou com uma referência apenas indireta ao
sacrifício do Calvário.
Em virtude da sua íntima relação com o sacrifício do Gólgota, a Eucaristia é sacrifício em sentido próprio, e não apenas em sentido genérico como se se tratasse simplesmente da oferta de Cristo aos fiéis para seu alimento espiritual. Com efeito, o dom do seu amor e da sua obediência até ao extremo de dar a vida (cf. Jo 10,17-18) é em primeiro lugar um dom a seu Pai. Certamente, é um dom em nosso favor, antes em favor de toda a
humanidade (cf. Mt 26, 28; Mc 14, 24; Lc 22, 20; Jo 10, 15), mas primariamente um dom ao Pai: « Sacrifício que o Pai aceitou, retribuindo esta doação total de seu Filho, que Se
fez “obediente até à morte” (Flp 2, 8), com a sua doação paterna, ou seja, com o dom da nova vida imortal na ressurreição ».(18)
Ao entregar à Igreja o seu sacrifício, Cristo quis também assumir o sacrifício espiritual da Igreja, chamada por sua vez a oferecer-se a si própria juntamente com o sacrifício de Cristo. Assim no-lo ensina o Concílio Vaticano II: « Pela participação no sacrifício
eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, [os fiéis] oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela ».(19)
A Páscoa de Cristo inclui, juntamente com a paixão e morte, a sua ressurreição. Assim o lembra a aclamação da assembleia depois da consagração: « Proclamamos a vossa ressurreição ». Com efeito, o sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da
paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício a sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-Se « pão da vida »
(Jo 6, 35.48), « pão vivo » (Jo 6, 51), na Eucaristia. S. Ambrósio lembrava aos neófitos esta verdade, aplicando às suas vidas o acontecimento da ressurreição: « Se hoje Cristo
é teu, Ele ressuscita para ti cada dia ».(20) Por sua vez, S. Cirilo de Alexandria sublinhava que a participação nos santos mistérios « é uma verdadeira confissão e recordação de que o Senhor morreu e voltou à vida por nós e em nosso favor ».(21)
15. A reprodução sacramental na Santa Missa do sacrifício de Cristo coroado pela sua ressurreição implica uma presença muito especial, que – para usar palavras de Paulo VI –
« chama-se “real”, não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo
completo, Deus e homem ».(22) Reafirma-se assim a doutrina sempre válida do Concílio de Trento: « Pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação ».(23) Verdadeiramente a Eucaristia é
mysterium fidei, mistério que supera os nossos pensamentos e só pode ser aceite pela fé, como lembram frequentemente as catequeses patrísticas sobre este sacramento divino.
« Não hás-de ver – exorta S. Cirilo de Jerusalém – o pão e o vinho [consagrados] simplesmente como elementos naturais, porque o Senhor disse expressamente que são o seu corpo e o seu sangue: a fé t'o assegura, ainda que os sentidos possam sugerir-te
outra coisa ».(24)
« Adoro te devote, latens Deitas »: continuaremos a cantar com S. Tomás, o Doutor Angélico. Diante deste mistério de amor, a razão humana experimenta toda a sua limitação. Compreende-se como, ao longo dos séculos, esta verdade tenha estimulado a
teologia a árduos esforços de compreensão.
São esforços louváveis, tanto mais úteis e incisivos se capazes de conjugarem o exercício crítico do pensamento com a « vida de fé » da Igreja, individuada especialmente « no carisma da verdade » do Magistério e na « íntima inteligência que experimentam das
coisas espirituais » (25) sobretudo os Santos. Permanece o limite apontado por Paulo VI:
« Toda a explicação teológica que queira penetrar de algum modo neste mistério, para estar de acordo com a fé católica deve assegurar que na sua realidade objectiva,
independentemente do nosso entendimento, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de modo que a partir desse momento são o corpo e o sangue adoráveis
do Senhor Jesus que estão realmente presentes diante de nós sob as espécies sacramentais do pão e do vinho ».(26)
A eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e o sangue do Senhor. O sacrifício eucarístico está particularmente orientado para a
união íntima dos fiéis com Cristo através da comunhão: recebemo-Lo a Ele mesmo que Se ofereceu por nós, o seu corpo entregue por nós na cruz, o seu sangue « derramado por muitos para a remissão dos pecados » (Mt 26, 28). Recordemos as suas palavras:
« Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim também o que Me come viverá por Mim » (Jo 6, 57). O próprio Jesus nos assegura que tal união, por Ele afirmada em analogia com a união da vida trinitária, se realiza verdadeiramente. A
Eucaristia é verdadeiro banquete, onde Cristo Se oferece como alimento. A primeira vez que Jesus anunciou este alimento, os ouvintes ficaram perplexos e desorientados, obrigando o Mestre a insistir na dimensão real das suas palavras: « Em verdade, em
verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós » (Jo 6, 53). Não se trata de alimento em sentido metafórico, mas « a minha carne é, em verdade, uma comida, e o meu sangue é, em
verdade, uma bebida » (Jo 6, 55).
Através da comunhão do seu corpo e sangue, Cristo comunica-nos também o seu Espírito. Escreve S. Efrém: « Chamou o pão seu corpo vivo, encheu-o de Si próprio e do seu Espírito. [...] E aquele que o come com fé, come Fogo e Espírito. [...] Tomai e comei-o
todos; e, com ele, comei o Espírito Santo. De facto, é verdadeiramente o meu corpo, e quem o come viverá eternamente ».(27) A Igreja pede este Dom divino, raiz de todos os
outros dons, na epiclese eucarística. Assim reza, por exemplo, a Divina Liturgia de S. João Crisóstomo: « Nós vos invocamos, pedimos e suplicamos: enviai o vosso Santo
Espírito sobre todos nós e sobre estes dons, [...] para que sirvam a quantos deles participarem de purificação da alma, remissão dos pecados, comunicação do Espírito Santo ».(28) E, no Missal Romano, o celebrante suplica: « Fazei que, alimentando-nos do
Corpo e Sangue do vosso Filho, cheios do seu Espírito Santo, sejamos em Cristo um só corpo e um só espírito ».(29) Assim, pelo dom do seu corpo e sangue, Cristo aumenta em nós o dom do seu Espírito, já infundido no Batismo e recebido como « selo » no
sacramento da Confirmação.
A aclamação do povo depois da consagração termina com as palavras « Vinde, Senhor Jesus », justamente exprimindo a tensão escatológica que caracteriza a celebração eucarística (cf. 1 Cor 11, 26). A Eucaristia é tensão para a meta, antegozo da alegria plena prometida por Cristo (cf. Jo 15, 11); de certa forma, é antecipação do Paraíso, « penhor da futura glória ».(30)A Eucaristia é celebrada na ardente expectativa de Alguém, ou seja, « enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador ».(31) Quem se alimenta de Cristo na Eucaristia não precisa de esperar o Além
para receber a vida eterna: já a possui na terra, como primícias da plenitude futura, que envolverá o homem na sua totalidade. De facto, na Eucaristia recebemos a garantia também da ressurreição do corpo no fim do mundo: « Quem come a minha carne e bebe
o meu sangue tem a vida eterna e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia » (Jo 6, 54). Esta garantia da ressurreição futura deriva do facto de a carne do Filho do Homem, dada em alimento, ser o seu corpo no estado glorioso de ressuscitado. Pela Eucaristia, assimila-se,
por assim dizer, o « segredo » da ressurreição. Por isso, S. Inácio de Antioquia justamente definia o Pão eucarístico como « remédio de imortalidade, antídoto para não morrer ».(32)
19. A tensão escatológica suscitada pela Eucaristia exprime e consolida a comunhão com a Igreja celeste. Não é por acaso que, nas Anáforas orientais e nas Orações Eucarísticas
latinas, se lembra com veneração Maria sempre Virgem, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, os anjos, os santos apóstolos, os gloriosos mártires e todos os santos.
Trata-se dum aspecto da Eucaristia que merece ser assinalado: ao celebrarmos o sacrifício do Cordeiro unimo-nos à liturgia celeste, associando-nos àquela multidão
imensa que grita: « A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro » (Ap 7, 10). A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre
sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho.
Consequência significativa da tensão escatológica presente na Eucaristia é o estímulo que dá à nossa caminhada na história, lançando uma semente de ativa esperança na
dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres. De facto se a visão cristã leva a olhar para o « novo céu » e a « nova terra » (Ap 21, 1), isso não enfraquece, antes estimula o nosso sentido de responsabilidade pela terra presente.(33) Desejo reafirmá-lo
com vigor ao início do novo milênio, para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a não descurar os seus deveres de cidadãos terrenos. Têm o dever de contribuir com a
luz do Evangelho para a edificação de um mundo à medida do homem e plenamente conforme ao desígnio de Deus.
Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz, colocar sólidas premissas de justiça e
solidariedade nas relações entre os povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E também que dizer das mil contradições dum mundo « globalizado », onde parece que os mais débeis, os mais pequenos e os mais pobres
pouco podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também para isto que o Senhor quis ficar connosco na Eucaristia, inserindo nesta sua presença
sacrificial e comensal a promessa duma humanidade renovada pelo seu amor. É significativo que, no lugar onde os Sinópticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do
« lava-pés », gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo 13, 1- 20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como « indi- gna » duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de
indiferença pelos pobres (cf. 1 Cor 11, 17-22.27-34).(34)
Anunciar a morte do Senhor « até que Ele venha » (1 Cor 11, 26) inclui, para os que participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta
se torne, de certo modo, toda « eucarística ». São precisamente este fruto de transfiguração da existência e o empenho de transformar o mundo segundo o Evangelho
que fazem brilhar a tensão escatológica da celebração eucarística e de toda a vida cristã:
« Vinde, Senhor Jesus! » (cf. Ap 22, 20).


CARTA ENCÍCLICA
ECCLESIA DE EUCHARISTIA
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A EUCARISTIA
NA SUA RELAÇÃO COM A IGREJA


sábado, 23 de fevereiro de 2013

A EUCARISTIA



A fé na presença real de Cristo na Eucaristia levou a Igreja a tributar culto de latria ao Santíssimo Sacramento, tanto durante a liturgia da Missa, como fora da sua celebração.

1. A presença real eucarística

Na celebração da Eucaristia torna-se presente a Pessoa de Cristo – o Verbo encarnado, que foi crucificado, morreu e ressuscitou pela salvação do mundo –, com uma presença misteriosa, sobrenatural e única. Encontramos o fundamento desta doutrina na própria instituição da Eucaristia, quando Jesus identificou os dons que oferecia, com o seu Corpo e com o seu Sangue («isto é o meu Corpo… este é o cálice do meu Sangue…»), ou seja, com a sua corporeidade inseparavelmente unida ao Verbo e, portanto, com a sua Pessoa total.
Jesus Cristo está certamente presente, de múltiplas maneiras, na sua Igreja: na sua Palavra, na oração dos fiéis (cf. Mt 18,20), nos pobres, doentes e prisioneiros (cf. Mt 25,31-46), nos sacramentos e especialmente na pessoa do ministro sacerdote. Mas, sobretudo, está presente sob as espécies eucarísticas (cf. Catecismo, 1373).
A singularidade da presença eucarística de Cristo está no facto de que o Santíssimo Sacramento contém verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, juntamente com a Alma e a Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo, Deus verdadeiro e Homem perfeito, o mesmo que nasceu da Virgem Maria, morreu na Cruz e agora está sentado nos céus à direita de Deus Pai. «Esta presença chama-se "real", não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem "reais", mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem» (Catecismo, 1374).
O termo substancial procura indicar a consistência da presença pessoal de Cristo na Eucaristia: esta não é simplesmente uma “figura”, capaz de “significar” e de estimular a mente a pensar em Cristo, realmente presente noutro lugar, no Céu; nem é um simples “sinal”, através do qual se nos oferece a “virtude salvadora” – a graça –, que provém de Cristo. A Eucaristia é, pelo contrário, presença objectiva, do ser-em-si (a substância) do Corpo e do Sangue de Cristo, ou seja, da sua inteira Humanidade – inseparavelmente unida à Divindade pela união hipostática –, embora velada sob as “espécies” ou aparências do pão e do vinho.
Por conseguinte, «a presença do verdadeiro Corpo e do verdadeiro Sangue de Cristo neste sacramento, "não a apreendemos pelos sentidos, diz São Tomás, mas só pela fé, que se apoia na autoridade de Deus"» (Catecismo, 1381). Isto o exprime muito bem a seguinte estrofe do hino Adoro te devote: «Visus, tactus, gustus in te fállitur, Sed audítu solo tuto créditur. Credo, quidquid dixit Dei Fílius: Nil hoc verbo Veritátis vérius» (A vista, o tacto, o gosto, nada sabem. Só no que o ouvido sabe se há-de crer. Creio em tudo o que o Filho de Deus veio dizer, nada mais verdadeiro pode ser do que a própria Palavra da Verdade.)

2. A transubstanciação 

A presença verdadeira, real e substancial de Cristo na Eucaristia supõe uma conversão extraordinária, sobrenatural e única. Tal conversão tem o seu fundamento nas próprias palavras do Senhor: «Tomai e comei: Isto é o Meu Corpo… Bebei dele todos. Porque isto é o Meu Sangue, o sangue da nova Aliança» (Mt 26,26-28). Com efeito, estas palavras tornam-se realidade só se o pão e o vinho deixam de ser pão e vinho para se converterem no Corpo e no Sangue de Cristo, porque é impossível que uma mesma coisa possa ser simultaneamente dois seres diferentes: pão e corpo de Cristo, vinho e Sangue de Cristo.

Sobre este ponto, o Catecismo da Igreja Católica recorda: «O Concílio de Trento resume a fé católica declarando: “Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação”» (Catecismo, 1376). No entanto, permanecem inalteradas as aparências de pão e de vinho, ou seja “as espécies eucarísticas”.
Apesar dos sentidos captarem verdadeiramente as aparências do pão e do vinho, a luz da fé dá-nos a conhecer que sob o véu das espécies eucarísticas o que realmente se contém é a substância do Corpo e do Sangue do Senhor. Graças à permanência das espécies sacramentais do pão, podemos afirmar que o Corpo de Cristo – a sua inteira Pessoa – está realmente presente no altar, na píxide ou no Sacrário.

3. Propriedades da presença eucarística

O modo da presença de Cristo na Eucaristia é um mistério admirável. Segundo a fé católica, Jesus está integralmente presente, com a sua corporeidade glorificada, sob cada uma das espécies eucarísticas, e está íntegro em cada uma das partes resultantes da divisão das espécies, de modo que a fracção do pão não divide Cristo (cf. Catecismo, 1377) [1]. Trata-se de uma modalidade de presença singular, porque é invisível e intangível, e além disso, é permanente, no sentido de que, uma vez realizada a consagração, dura todo o tempo que subsistam as espécies eucarísticas.

4. O culto da Eucaristia

A fé na presença real de Cristo na Eucaristia levou a Igreja a tributar culto de latria (quer dizer, de adoração), ao Santíssimo Sacramento, tanto durante a liturgia da Missa (por isso indicou que ajoelhemos ou nos inclinemos profundamente ante as espécies consagradas), como fora da celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas no Sacrário (ou Tabernáculo), apresentando-as aos fiéis para que as venerem com solenidade, levando-as em procissão, etc. (cf. Catecismo, 1378).
A Sagrada Eucaristia conserva-se no Sacrário [2]:
- Principalmente para poder dar a Sagrada Comunhão aos doentes e a outros fiéis impossibilitados de participar na Santa Missa.
- Além disso, para que a Igreja possa prestar culto de adoração a Deus Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento (de modo especial durante a Exposição da Santíssima Eucaristia, na Bênção com o Santíssimo; na Procissão com o Santíssimo Sacramento na Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, etc.).
- E para que os fiéis possam adorar sempre o Senhor com frequentes visitas. Neste sentido, afirma João Paulo II: «A Igreja e o mundo têm grande necessidade do culto eucarístico. Jesus espera por nós neste Sacramento do Amor. Não nos mostremos avaros com o nosso tempo para nos irmos encontrar com Ele na adoração, na contemplação cheia de fé e pronta para reparar as grandes culpas e os crimes do mundo. Não cesse nunca a nossa adoração» [3].
Há duas grandes festas (solenidades) litúrgicas em que se celebra de modo especial este Sagrado Mistério: a Quinta-Feira Santa (comemora-se a instituição da Eucaristia e da Ordem Sagrada) e a solenidade do Corpo e do sangue de Cristo (destinada principalmente à adoração e à contemplação do Senhor na Eucaristia).

5. A Eucaristia, Banquete Pascal da Igreja

5.1. Porque é que a Eucaristia é o Banquete Pascal da Igreja?
«A Eucaristia é o banquete pascal, porque Cristo, pela realização sacramental da sua Páscoa [a passagem deste mundo ao Pai através da sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa [4], nos dá o seu Corpo e o seu Sangue, oferecidos como alimento e bebida, e nos une a si e entre nós no seu sacrifício» (Compêndio, 287).
5.2. Celebração da Eucaristia e Comunhão com Cristo
«Missa é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor. Mas a celebração do sacrifício eucarístico está toda orientada para a união íntima dos fiéis com Cristo pela comunhão. Comungar é receber o próprio Cristo, que Se ofereceu por nós» (Catecismo, 1382).
A Santa Comunhão, ordenada por Cristo («tomai e comei… bebei dele todos…», Mt 26,26-28; cf. Mc 14,22-24; Lc 22,14-20; 1 Cor 11,23-26), forma parte da estrutura fundamental da celebração da Eucaristia. Só quando Cristo é recebido pelos fiéis como alimento de vida eterna, alcança sentido pleno tornar-se alimento para os homens, e se cumpre o memorial por Ele instituído [5]. Por isso, a Igreja recomenda vivamente a comunhão sacramental a todos os que participem na celebração eucarística e possuam as devidas disposições para receber dignamente o Santíssimo Sacramento [6].
5.3. Necessidade da Sagrada Comunhão
Quando Jesus prometeu a Eucaristia afirmou que este alimento não só é útil, mas necessário: é uma condição de vida para os seus discípulos. «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós» (Jo 6, 53).
Comer é uma necessidade para o homem. E, como o alimento natural mantém o homem na vida e lhe dá forças para caminhar por este mundo, de modo semelhante a Eucaristia mantém o cristão na vida de Cristo, recebida no Baptismo, e dá-lhe forças para ser fiel ao Senhor nesta terra, até à chegada à Casa do Pai. Os Padres da Igreja interpretaram o pão e a água, que o Anjo ofereceu ao Profeta Elias, como tipo da Eucaristia (cf. 1 Rs 19, 1-8): depois de receber o dom, ele que estava esgotado recupera o seu vigor e é capaz de cumprir a missão de Deus.
Por conseguinte, a Comunhão não é um elemento que possa ser acrescentado arbitrariamente à vida cristã; não é necessária só para alguns fiéis especialmente comprometidos na missão da Igreja, mas é vital para todos: só pode viver em Cristo e difundir o seu Evangelho quem se nutre da própria vida de Cristo.
O desejo de receber a Santa Comunhão deveria estar sempre presente nos cristãos, como permanente deve ser a vontade de alcançar o fim último da nossa vida. Este desejo de receber a Comunhão, explícito ou pelo menos implícito, é necessário para alcançar a salvação.
Além disso, de facto, a recepção da Comunhão é necessária, com necessidade de preceito eclesiástico, para todos os cristãos no uso da razão: «A Igreja impõe aos fiéis a obrigação (…) de receber a Eucaristia ao menos uma vez em cada ano, se possível no tempo pascal, preparados pelo sacramento da Reconciliação» (Catecismo, 1389). Este preceito eclesiástico indica apenas o mínimo, que nunca será suficiente para desenvolver uma autêntica vida cristã. Por isso, a Igreja «recomenda vivamente aos fiéis que recebam a santa Eucaristia aos domingos e dias de festa, ou ainda mais vezes, mesmo todos os dias» (Catecismo, 1389)

5.4. Ministro da Sagrada Comunhão

O ministro ordinário da Santa Comunhão é o bispo, o presbítero e o diácono [7]. O acólito é ministro extraordinário permanente da distribuição da Comunhão [8]. Podem ser ministros extraordinários da distribuição da Comunhão outros fiéis a que o Bispo do lugar atribuiu a faculdade de distribuir a Eucaristia, quando o julgue necessário na pastoral dos fiéis e não esteja presente um sacerdote, um diácono ou um acólito [9].
«Não está permitido que os fiéis tomem a hóstia consagrada nem o cálice sagrado “por si mesmos, e muito menos que o passem entre si de mão em mão”» [10]. A propósito desta norma, é oportuno considerar que a Comunhão tem valor de signo sagrado; este signo deve manifestar que a Eucaristia é um dom de Deus ao homem; por isso, em condições normais, deve-se distinguir, na distribuição da Eucaristia, entre o ministro que dispensa o dom, oferecido pelo próprio Cristo, e o sujeito que o acolhe com gratidão, na fé e no amor.
5.5. Disposições para receber a Sagrada Comunhão
Disposições da alma
Para comungar dignamente é necessário estar na graça de Deus. «Quem comer o pão ou beber do cálice do Senhor indignamente – proclama S. Paulo –, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, cada qual a si mesmo e então coma desse pão e beba deste cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação» (1Cor 11, 27-29). Portanto, ninguém se deve aproximar da Sagrada Comunhão com a consciência de ter cometido um pecado mortal, por muito contrito que lhe pareça estar, sem a preceder da confissão sacramental (cf. Catecismo, 1385).
Para comungar frutuosamente requer-se, além de estar na graça de Deus, um sério empenho em receber o Senhor com a maior devoção possível: preparação (remota e próxima); recolhimento; actos de amor e de reparação, de adoração, de humildade, de acção de graças, etc.
Disposições do corpo
A reverência interior ante a Sagrada Eucaristia deve-se reflectir também nas disposições do corpo. A Igreja prescreve o jejum. Para os fiéis do rito latino o jejum consiste em se abster de qualquer alimento ou bebida (excepto água ou fármacos) uma hora antes de comungar [11]. Também se deve cuidar a higiene corporal, o modo de vestir adequado, os gestos de veneração que manifestem respeito e amor ao Senhor, presente no Santíssimo Sacramento, etc. (cf. Catecismo, 1387).
O modo tradicional de receber a Sagrada Comunhão no rito latino – fruto da fé, do amor e da piedade plurissecular da Igreja – é de joelhos e na boca. Os motivos que deram origem a este piedoso e antiquíssimo costume continuam plenamente válidos. Também se pode comungar de pé e, nalgumas dioceses do mundo, está permitido – nunca imposto – receber a comunhão na mão [12].
5.6. Idade e preparação para receber a primeira Comunhão
O preceito da comunhão sacramental obriga a partir do uso da razão. Convém prepará-la muito bem e não atrasar a Primeira Comunhão das crianças. «Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis, porque o Reino de Deus pertence aos que são como eles» (Mc 10,14) [13].
Para se poder receber a Primeira Comunhão, exige-se que a criança tenha conhecimento, segundo a sua capacidade, dos principais mistérios da nossa fé, e que saiba distinguir o Pão eucarístico do pão vulgar. «Os pais em primeiro lugar, e os que fazem a suas vezes, assim como também o pároco, têm obrigação de procurar que as crianças, que chegaram ao uso da razão, se preparem convenientemente e se nutram, quanto antes, com prévia confissão sacramental, deste alimento divino» [14].

5.7. Efeitos da Sagrada Comunhão

O que o alimento produz no corpo para bem da vida física, assim produz na alma a Eucaristia, de modo infinitamente mais sublime, o bem da vida espiritual. Mas enquanto o alimento se converte na nossa substância corporal, ao recebermos a Sagrada Comunhão, somos nós os que nos convertemos em Cristo: «Não me converterás tu em ti, como a comida na tua carne, mas que tu te converterás em Mim» [15]. Mediante a Eucaristia a nova vida em Cristo, iniciada no crente com o Baptismo (cf. Rm 6,3-4; Gal 3,27-28), pode consolidar-se e desenvolver-se até alcançar a sua plenitude (cf. Ef 4,13), permitindo ao cristão levar a bom termo o ideal enunciado por S. Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2,20) [16].
Por conseguinte, a Eucaristia configura-nos com Cristo, faz-nos participantes do ser e da missão do Filho, identifica-nos com as suas intenções e sentimentos, dá-nos a força para amar como Cristo nos pede (cf. Jo 13,34-35), para inflamar todos os homens e mulheres do nosso tempo com o fogo do amor divino que Ele veio trazer à Terra (cf. Lc 12,49). Tudo isto deve manifestar-se efectivamente na nossa vida: «Se fomos renovados com a recepção do Corpo do Senhor, temos de o manifestar com obras. Que os nossos pensamentos sejam sinceros: de paz, de entrega, de serviço. Que as nossas palavras sejam verdadeiras, claras, oportunas; que saibam consolar e ajudar, que saibam sobretudo levar aos outros a luz de Deus. Que as nossas acções sejam coerentes, eficazes, acertadas: que tenham esse bonus odor Christi , o bom odor de Cristo, por recordarem o seu modo de Se comportar e de viver» [17].
Na Sagrada Comunhão, Deus aumenta a graça e as virtudes, perdoa os pecados veniais e a pena temporal, preserva dos pecados mortais e concede a perseverança no bem: numa palavra, estreita os laços de união com Ele (cf. Catecismo, 1394-1395). Mas a Eucaristia não foi instituída para o perdão dos pecados mortais; isto é próprio do Sacramento da Confissão (cf. Catecismo, 1395).
A Eucaristia fomenta a unidade de todos os cristãos no Senhor, isto é, a unidade da Igreja, Corpo Místico de Cristo (cf. Catecismo, 1396).
A Eucaristia é penhor ou garantia da glória futura, ou seja, da ressurreição e da eterna felicidade junto de Deus, Uno e Trino, dos Anjos e de todos os Santos: «Tendo passado deste mundo para o Pai, Cristo deixou-nos na Eucaristia o penhor da glória junto d'Ele: a participação no santo sacrifício identifica-nos com o seu coração, sustenta as nossas forças ao longo da peregrinação desta vida, faz-nos desejar a vida eterna e desde já nos une à Igreja do céu, à Santíssima Virgem e a todos os santos» (Catecismo, 1419).


Ángel García Ibáñez
Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 1373-1405.
João Paulo II, Enc. Ecclesia de Eucharistia, 17-IV-2003, 15; 21-25; 34-46.
Bento XVI, Ex. Ap. Sacramentum caritatis, 22-II-2007, 14-15; 30-32; 66-69.
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 25-III-2004, 80-107; 129-145; 146-160.
Leituras recomendadas
S. Josemaria, Homilia «Na Festa do Corpo de Deus», em Cristo que Passa, 150-161.
J. Ratzinger, Deus próximo de nós. A Eucaristia centro da vida, Tenacitas, Coimbra 2005, pp. 17-32; 85-132.
J. Echevarría , Eucaristia e Vida Cristã, Diel, Lisboa 2009, pp. 21-58; 101-188.
J.R. Villar – F.M. Arocena – L. Touze, Eucaristía, en C. Izquierdo (dir.), Diccionario de Teología, Eunsa, Pamplona 2006, pp. 360-361; 366-370.
Notas
[1] Por isso «a Comunhão apenas sob a espécie de pão permite receber todo o fruto de graça da Eucaristia» (Catecismo, 1390).
[2] Cf. Paulo VI, Carta Encíclica Mysterium Fidei, 56: João Paulo II, Enc. Ecclesia de Eucharistia, 29; Bento XVI, Ex. ap. Sacramentum Caritatis, 66.69; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 129-145.
[3] João Paulo II, Carta Dominicae Cenae, 3.
[4] O termo páscoa provém do hebreu e originariamente significa passagem, deslocação. No livro do Êxodo, onde se narra a primeira Páscoa hebraica (cf. Ex 12,1-14 y Ex 12, 21-27), este termo está vinculado ao verbo “superar”, à passagem do Senhor e do seu anjo na noite da libertação (quando o Povo escolhido celebrou a Ceia Pascal), e à deslocação do Povo de Deus da escravidão do Egipto para a liberdade da terra Prometida.
[5] Isto não quer dizer que, sem a Comunhão de todos os presentes, a celebração da Eucaristia seria inválida; ou que todos devam comungar sob as duas espécies; a dita Comunhão só é necessária para o sacerdote celebrante.
[6] Cf. Missal Romano, Institutio generalis, 80; João Paulo II, Enc. Ecclesia de Eucharistia, 16; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 81-83, 88-89.
[7] Cf. Código de Direito Canónico, 910; Missal Romano, Institutio generalis, 92-94.
[8] Cf. CDC, 910 § 2; Missal Romano, Institutio generalis, 98; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 154-160.
[9] Cf. CDC, 910 § 2, y 230 § 3; Missal Romano, Institutio generalis, 100 e 162; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 88.
[10] Missal Romano, Institutio generalis, 160; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 94.
[11] Cf. CDC, 919 § 1.
[12] Cf. João Paulo II, Carta Dominicae Cenae, 11. Missal Romano, Instituto generalis, 161; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 92.
[13] Cf. S. Pio X, Decreto Quam singulari, I: DS 3530; CDC, 913-914; Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 987.
[14] CDC, 914; cf. Catecismo, 1457.
[15] S. Agostinho, Confissões, 7,10: CSEL 38/1, 157.
[16] É claro que os efeitos salvíficos da Eucaristia não se alcançam de uma só vez na sua plenitude «não por defeito do poder de Cristo, mas por defeito da devoção do homem» (S. Tomás de Aquino, S.Th., III, q. 79, a. 5, ad 3).
[17] S. Josemaria, Cristo que Passa, 156.

Meditação do Rosário III

Os mistérios luminosos
Cônego Henrique Soares da Costa

1. O batismo de Jesus
Leitura: Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,24-34
Este primeiro mistério luminoso é riquíssimo de significado. Vamos contemplá-lo tomando cinco aspectos, quatro facetas desta riquíssima realidade:
1. O batismo do Senhor marca o início de seu ministério público. É verdade que o Senhor Jesus começou sua obra de salvação no momento mesmo de sua Encarnação no seio da Virgem Maria (cf. Hb 10,5-7); ele foi nos salvando nos nove meses de gestação de sua Mãe, na pobreza de seu nascimento, nos anos pobres e apertados de Nazaré, na vida pequena e silenciosa de cerca de trinta anos... Em tudo isso ele foi entrando na nossa vida, no nosso tempo e tudo redimindo, a tudo dando um sabor de eternidade. Mas, se Jesus somente tivesse vivido e morrido entre nós, sem pregar, sem anunciar explicitamente o Reino por palavras e gestos poderosos e cheios de autoridade, se não tivesse escolhido apóstolos e fundado sua Igreja, jamais saberíamos que Deus nos visitou, que fomos salvos e jamais poderíamos responder conscientemente com nossa fé a esse anúncio de salvação. Assim, batizado no Jordão, Jesus é publica e oficialmente apresentado como o Messias esperado por Israel. Nele, se cumpre as esperanças do Antigo Povo e Deus revela sua fidelidade: quando promete, não trai jamais!
2. É impressionante e deve nos inspirar a humildade do Senhor Jesus: ele, que na infância toda submeteu-se humildemente à Lei judaica, agora entra na fila dos pecadores para ser batizado por João. Não somente entra na fila como um qualquer, mas na fila dos que se reconhecem pecadores, necessitados de arrependimento e perdão. Jesus, que não tem pecado, veio assumir nossos pecados para nos libertar dos pecados. Ele é o cordeiro que veio tirar os pecados do mundo. A imagem do cordeiro deve nos recordar o cordeiro sobre o qual o sacerdote impunha as mãos, confessando os pecados do povo. Depois ele era mandado para o deserto. Assim também Jesus: carregando os nossos pecados foi crucificado fora dos muros de Jerusalém, como um rejeitado por Deus e pelo seu povo (cf. Lv 16,5-22; Hb 13,12s); o cordeiro é ainda imagem do cordeiro sacrificado e oferecido a Deus pelos pecados do povo (cf. Lv 16,5-22) e, finalmente, é imagem do cordeiro pascal, sinal da libertação do povo de Deus. Dele, nenhum osso deveria ser quebrado (cf. Ex 12,46; Jo 19,33-36). Pois bem, na fila dos pecadores Jesus se nos apresenta como esse humilde e despojado cordeiro de Deus.
3. O batismo é também o momento da unção messiânica do Senhor. Ele é o Ungido, isto é, o Messias. Já ungido em sua humanidade santíssima, plasmada desde o primeiro momento na potência do Espírito Santo (cf. Lc 1,35), recebe agora uma unção pública (que será unção plena na ressurreição – cf. At 2,32.36) com vistas ao seu ministério público. A partir de agora, Jesus será pleno do Espírito Santo, que o conduzirá na sua missão (cf. Jo 1,33-34; Mc, 1,12; Lc 4,14.17-18; 6,19). Será este mesmo Espírito que o Senhor entregará na cruz ao Pai e receberá de volta de um modo novo na Ressurreição, derramando-o sobre nós (cf. Jo 19,30; At 2,32s).
4. É também para nossa contemplação a palavra de João Batista ao apresentar Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,19). A palavra aramaica é talya que significa ao mesmo tempo cordeiro e servo. Jesus será o Messias Servo Sofredor, cordeiro que morrerá pelos pecados do mundo (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12).
5. Finalmente, há neste mistério, uma clara manifestação da Trindade Santa: o Pai apresenta o Filho, ungido-o com o Espírito; o Filho humildemente se deixa ungir, como enviado do Pai e seu Servo Sofredor; o Espírito Santo, deixa-se enviar pelo Pai sobre o Filho, em quem repousa e permanece para a missão. Ao aparecer em forma de pomba (como a pomba que, após o dilúvio, trouxe no bico um ramo de oliveira, da qual se faz o óleo da unção), o Espírito manifesta Jesus como aquele que, ungido, é o início de uma nova criação e nova humanidade, como o mundo logo após o dilúvio.
2. A transformação da água em vinho em Caná da Galiléia
Leitura: Jo 2,1-12
Vamos contemplar este mistério a partir de cinco idéias.
1. As bodas de Caná, na narrativa de São João, são imagem da consumação da aliança entre Deus e o seu povo, consumação acontecida precisamente em Jesus, o Messias de Deus. Muitíssimas vezes no Antigo Testamento, a aliança entre Deus e Israel fora comparada a um pacto matrimonial: Deus é o esposo fiel, Israel é a esposa, tantas vezes infiel, prostituindo-se na idolatria. Assim, diante do fracasso da antiga aliança, Deus promete que fará uma aliança eterna com um resto. Seria uma aliança espiritual, nova e eterna. O Messias, com a sua vinda, haveria de selar tal aliança. Pois bem, Caná é imagem dessa nova realidade. Chegaram as núpcias da nova aliança. Jesus é o esposo, o próprio Deus que vem desposar o novo Israel, a Igreja, sua esposa. Aí, a Igreja, a Mulher, é representada pela Virgem Maria. Daí Jesus chamá-la “Mulher”! Assim, contempla-se aqui a fidelidade amorosa do Deus de Israel, que cumpre sua promessa de uma aliança nova e eterna e vem desposar Israel, sua esposa.
2. Estas núpcias, prenunciadas em Caná, somente na Páscoa (morte e ressurreição) do Senhor é que iriam consumar-se. O evangelho insinua isso quando afirma: “No terceiro dia houve núpcias... e Jesus manifestou a sua glória... e seus discípulos creram nele” (Jo 2,1.11b). Isto que aqui é prenunciado, na ressurreição será realizado: ao Terceiro Dia, dar-se-ão as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,7), quando o Ressuscitado mostrou a sua glória e seus discípulos creram nele! Então, pode-se contemplar neste mistério a união fiel e amorosa entre Cristo e a sua Igreja numa nova e eterna aliança de amor, que começou neste mundo com a morte e ressurreição do Esposo e será plena, um Dia, na glória dos céus. Até lá, a Esposa, ansiosa e amorosamente, caminha exclamando ao Esposo: “Vem!” e ele, fielmente responde: “Sim, venho em breve!” (Ap 22,17.20).
3. Ainda digno de contemplação é a água que enchia as talhas usadas para a purificação ritual segundo a Lei dos judeus transformada no vinho novo e bom, sinal do dom do Espírito, Nova Lei da nova e eterna aliança. É o que Jesus, o Ungido do Pai veio nos trazer: a nova aliança no Espírito Santo, Espírito que embriaga e nos dá a perene alegria de Deus (cf. Ef 5,18).
4. Outro ponto para a meditação é o papel exercido pela Mãe do Senhor: “A Mãe de Jesus estava lá” – em Caná e ao pé da cruz (cf. Jo 19,25); estará também com o fruto da Páscoa, da Hora de Jesus: a Igreja nascente, no Cenáculo de Jerusalém (cf. At 1,12-14). É importante compreender isso: a Virgem Mãe nunca é o centro. Centro da nossa fé, centro da nossa salvação é somente o Senhor Nosso Jesus Cristo. Centro de nossa fé é a sua Páscoa: paixão, morte e ressurreição. E, no entanto, em ser o centro, a Virgem sempre está no centro, isto é, sempre está ali, no momento pascal do Senhor, no momento-chave da nossa salvação! Assim contemplemo-la como ministra (servidora) na obra salvífica de Cristo! Ela é não somente nossa Mãe na ordem da graça como também é modelo de serviço e cooperação na obra salvífica de Cristo.
5. Um último ponto para nossa contemplação é o papel de intercessão de Nossa Senhora. Em Caná ela vê a necessidade dos noivos e intercede; sua intercessão é toda obediente, toda de escuta à palavra de Jesus e de plena conformidade com sua vontade. Assim, ela mesma nos ensina a fazer sempre a vontade do Senhor: “Fazei tudo o que ele vos disser!” E, num dos momentos mais impressionantes do Novo Testamento, que deixa confusos até os estudiosos mais eruditos, a Hora do Senhor, Hora de manifestar sua glória na paixão e ressurreição, é misteriosamente antecipada: “A minha Hora ainda não chegou!” Quem pode mudar a Hora de Deus? Ninguém! E, no entanto, misteriosamente, sem pedir nada, sem exigir nada (ela é a Serva e uma serva não tem direitos, não exige nada!), ela antecipa a Hora! Pela sua atitude de amor, de confiança, de humildade, misteriosamente a Hora do Cristo faz-se misteriosamente em Caná e traz o vinho do Espírito, o bom vinho da alegria, sinal do Reino de Deus. Mas, isso somente é possível porque quando chegar a Hora (cf. Jo 17,1), a Mãe de Jesus estará lá, ao pé da cruz (cf. Jo 19,25). Então, somente é possível a intercessão em Cristo quando se estar disposto a levar a cruz com Cristo, permanecendo com ele na sua Hora, na Hora da cruz. Fora disso nenhuma intercessão é possível, nenhuma é válida, nenhuma é em Cristo! Não poderá nunca participar da manifestação da glória de Cristo não está disposto a participar da hora da paixão do Cristo!
3. O anúncio do Reino de Deus e o convite à conversão por parte de Jesus
Leitura: Mc 1,14-15
Podemos dividir a contemplação deste mistério em quatro partes:
1. Jesus saiu proclamando o Evangelho de Deus, isto é do Pai. Pensemos em Jesus. Ele veio da parte do Pai. No nosso Salvador, podemos descobrir toda a bondade da paternidade do nosso Deus. Em Jesus, Deus nos diz que ainda nos ama, que ainda nos espera, ainda crê em nós; mais ainda: dá-nos o seu Filho bendito, que vem ao nosso encontro com os braços e o coração abertos. Em Jesus, aconteça o que acontecer na nossa vida, sabemos que Deus nos ama, faz conta de nós e deseja nos salvar! No rosto de Cristo contemplemos, portanto, a Face bendita do Pai: que sua Face resplandeça sobre nós!
2. Qual é a proclamação de Jesus? O que ele prega? Primeiro: “Cumpriu-se o tempo!” Com Jesus, tudo quanto o Antigo Testamento havia anunciado iria agora realizar-se. Termina agora o tempo da preparação, termina o tempo da profecia, termina o tempo do anúncio distante: com Jesus as promessas de Deus iriam realizar-se. Eis a grande lição: Deus é fiel, nunca falta à sua promessa, nunca volta atrás na sua Palavra! Tudo quando fora anunciado e prometido agora haverá de cumprir-se. Jesus é o Amém, o Sim de Deu a todas as suas promessas!
3. Mas, em que consiste esse cumprimento? “O Reino de Deus está próximo!” Isto é, o Reinado de Deus chegou, aproximou-se, não mais está distante! Com Jesus, Deus está batendo à porta do coração de Israel e da humanidade, pedindo passagem, desejando entrar! Com Jesus, Deus começa o seu Reinado. E onde Deus reina, o homem é feliz, é livre, começa a viver uma vida plena, que desembocará na eternidade. É isto que Jesus manifesta com seus milagres, exorcismos e palavras: que o Reino chegou e, por isso, os cegos enxergam, os coxos andam, os que choram são consolados e os pobres recebem essa Boa-Nova! Também nós devemos escutar esta Boa-Notícia, este Evangelho: o Reino de Deus chegou para nós! Basta que acolhamos Jesus, presente para nós na Santa Igreja, basta que deixemos que o Senhor reine em nossa vida! Deus está às portas; não lhe fechemos o coração!
4. Mas, para que o anúncio do Reino seja eficaz em nossa vida, é necessário a aceitação de nossa parte. Daí a exortação do Senhor: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Isto é: Convertei-vos e crede neste Evangelho! Que Evangelho? Que o Reino chegou em Jesus. E ninguém pode acolhê-lo, ninguém pode realmente deixar Deus reinar sem se esvaziar de si próprio, do seu pecado, dos seus apegos, dos seus vícios, de suas más tendências! Converte-vos! Eis a condição para acolher o Reino. Então, se ao mesmo tempo o anúncio do Reino é uma alegria imensa é também um imenso desafio, um imenso trabalho de conversão constante! A verdade é que sem conversão não se acolhe verdadeiramente o Reino de Deus!
4. A Transfiguração do Senhor
Leitura: Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36; 2Pd 1,16-18
A Transfiguração do Senhor não é somente um fato histórico ocorrido durante a vida de Jesus neste mundo; é também um mistério, isto é, um acontecimento que tem um significado para a nossa fé, um acontecimento que revela algo da pessoa e da missão de Cristo e algo da nossa salvação. É isto que contemplaremos agora.
Primeiramente, a Transfiguração é uma preparação para a cruz. “Seis dias depois” (Mt 17,1) de anunciar pela primeira vez que morreria em Jerusalém, o Senhor toma três de seus discípulos e se transfigura diante deles. Ou seja, deseja fortalecer a fé de seus discípulos e mostrar que sua paixão caminha para a glória. Não é por acaso que os mesmos que estarão no Jardim do Horto, na agonia, foram os escolhidos para vê-lo em glória no Tabor. Esta idéia aparece ainda muito claro no fato de Moisés e Elias aparecerem com ele falando “de sua partida que iria se consumar em Jerusalém” (Lc 9,31). O sentido é muito bonito: Moisés (que representa a Lei) e Elias (significando os profetas) – Lei e profetas são o Antigo Testamento – anunciam a “partida”, o “êxodo” de Cristo: “Os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse na sua glória? E começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,25-26). Tudo isto nos ensina a guardar nos momentos de luz o sentido do amor e da misericórdia de Deus, para resistir nas provações dos momentos de sofrimento e de treva!
Um outro belo aspecto: no Tabor manifesta-se a glória da Trindade: na voz está o Pai, naquele que foi transfigurado está o Filho bendito, na Nuvem luminosa está o Espírito Santo, que é o Espírito de Glória e que a tudo glorifica. Toda a nossa salvação é obra da Trindade. Basta recordar que o Pai enviou o Filho no Espírito Santo para nossa salvação e que o Filho se ofereceu por nós ao Pai num Espírito Eterno (cf. Hb 9,14). Eis aqui outro belo ponto para a contemplação: adorar o amor glorioso e cheio de misericórdia do Deus Uno e Trino, que se nos revela sempre como amor para nossa salvação.
Também devemos aprender a contemplar o que o Pai nos diz: “Este é o meu Filho amado; ouvi-o”. Ou seja: toda a nossa felicidade, toda nossa vida e nosso único caminho para a verdadeira glória consiste em ouvir a voz do Filho amado. Esse “ouvir” não significa simplesmente estar atento à palavra de Jesus, mas, estar atento à própria Pessoa de Jesus: ele todo é a Palavra que estava junto do Pai e que se fez carne e habitou entre nós. Assim, amar Jesus, buscar Jesus, seguir Jesus, contemplar Jesus... tudo isto significa “ouvir” a voz do Filho, que é a única, plena e irrepetível Palavra que o Pai nos dirige no Espírito Santo!
Um outro aspecto que diz muito de nós e deve nos levar a um exame de consciência é o seguinte: no Tabor, os três discípulos se alegram e dizem: “É bom estarmos aqui; vamos fazer três tendas”. É agradável e desejável estar com Cristo na glória, no gozo, na alegria... Depois, no Monte das Oliveiras, esses mesmos três não tem coragem de vigiar com Jesus, dormem, não conseguem estar atentos ao Senhor e ficar com ele! Eis as lições para nós: Quem participa da glória do Tabor deve também estar disponível para ficar com Jesus no Horto da Agonia, pois quem não ama a cruz de Cristo não verá a glória de Cristo! Não se pode ser cristão de verdade sem essa disponibilidade para estar com Cristo nos momentos de cruz e escuridão! Nunca compreenderá de verdade o significado da glória de Cristo quem não participou também da agonia de Cristo. Sem participar da sua cruz, a participação na sua glória seria num sentido interesseiro e mundano, glória do mundo, que não passa de busca de si próprio, que escraviza e não leva a Deus. Somente participando da cruz do Senhor é que experimentaremos o verdadeiro significado e a verdadeira doçura da glória do Senhor. É por isso que Cristo proíbe aqueles três de falarem sobre isso até que ele tenha ressuscitado dos mortos. Somente depois que o virem morrer é que compreenderão o significado da glória da sua ressurreição e da esperança que ele nos prepara!
5. A instituição da Eucaristia
Leitura: Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; Jo 6,51-58; 1Cor 11,23-25
Muitas coisas poderiam ser contempladas neste mistério. Vou tomar cinco pontos, que podem ser de grande utilidade e edificação espiritual para nossa vida.
1. Na instituição da Eucaristia Jesus realiza sacramentalmente a consumação de sua vida que, na Sexta-feira Santa, realizou na cruz. Toda a sua existência, desde a concepção no seio da Virgem, foi uma entrega ao Pai por nós. Ele nunca teve tempo para si mesmo, nunca se buscou, nunca se poupou, nunca procurou sua vontade. Ao final de sua existência, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo, até o fim” (Jo 13,1s). Então, toda a existência de Nosso Senhor foi uma existência para o Pai em favor dos outros, em favor dos seus discípulos e irmãos. Agora, na hora de consumar essa vida vivida como entrega total de si, o nosso Salvador, deixa sua entrega num modo sacramental, para que fique presente no coração da Igreja e do mundo até que ele venha. Na Eucaristia a entrega de Cristo, vivida uma vez por todas na sua humana existência, torna-se continuamente presente sobre o Altar para que nós a recebamos em verdade. Cada cristão de cada época e de cada lugar pode dizer, participando da Eucaristia e recebendo o Corpo e o Sangue do Senhor: “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20).
2. Contemplando o Cristo que se entrega totalmente no simples sinal do pão e do vinho, tornando presente sua entrega total até a morte de cruz, nós somos convidados a compreender a lógica do Reino de Deus: ele não vem em grandes e vistosos feitos, nos gestos teatrais, no poder mundano, derivado do prestígio, da riqueza, do comando... Não! A lógica do Reino aparece no que é pequeno, no que é fraco, naquilo que aparentemente não conta e não tem importância. Que pode haver de mais trivial que um pedaço de pão, um pouco de vinho, umas gotas d’água? E, no entanto, nestes pobres elementos o Senhor se dá a nós e faz-nos participar da sua entrega de amor e já participar das coisas do céu. Esta contemplação deve nos fazer descobrir o valor das coisas pequenas, da fidelidade no cotidiano. Ali Deus se revela, ali nós somos convidados a viver na nossa carne a Eucaristia que celebramos na santa Liturgia.
3. A Eucaristia é também a missão e o destino da Igreja. É sua missão por dois motivos: primeiro, porque o Senhor mandou que ela a celebre em sua memória até que ele venha. Celebrando-a, a Igreja cumpre o mandato do seu Esposo e experimenta realmente sua presença. Em segundo lugar, é sua missão porque tendo escutado o Senhor na Escritura e partido com ele o pão, a Igreja experimenta que ele está vivo realmente, que realmente caminha conosco. Assim, como aqueles dois de Emaús (cf. Lc 24), ela deve sair pelo mundo em missão para anunciar que em verdade o Senhor ressuscitou e caminha conosco como Salvador e Senhor até o fim dos tempos. Deste modo, participar da Eucaristia, ouvindo o Senhor e partindo com ele o pão eucarístico, tornamo-nos suas testemunhas. A Eucaristia nunca é uma realidade somente entre nós e o Senhor. Nós dela participamos como Igreja e Igreja que é missionária de Cristo na nossa vida e no nosso mundo.
4. Outro aspecto importante é ter sempre em mente que a Eucaristia prepara nossa participação no Banquete da glória eterna. Participar da Eucaristia é participar das coisas do céu, é experimentar aqui na terra a glória do mundo que há de vir! Assim, nunca devemos perder de vista que comungando com o Senhor morto e ressuscitado nos tornamos herdeiros da sua santa Ressurreição. Quanto consolo, nos apertos e cansaços da vida, nutrirmo-nos do alimento que faz crescer em nós a vida eterna, aquela mesma que herdaremos em plenitude após a nossa santa morte: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.
5. Um último aspecto. A Eucaristia é o sacrifício de Cristo. Cada vez que a celebramos, oferecemo-lo ao Pai, como Senhor, Cordeiro imolado e ressuscitado, Aquele que está de pé, vitorioso, ante o trono do Pai, mas, ao mesmo tempo, é eternamente Cordeiro imolado (cf. Ap 5,6). Assim sendo, celebrar a Eucaristia, participando do Corpo e Sangue do Cordeiro imolado, somos chamados a colocar na nossa vida o Sacrifício que celebramos, celebrando na vida o que oferecemos no Altar. É o que nos diz São Paulo: “Exorto-vos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto no Espírito. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,1-2). Então, não pode participar da Eucaristia quem não estiver disposto a completar na sua carne, a viver na sua vida a entrega do Senhor Jesus ao Pai!

http://www.domhenrique.com.br/index.php/cursos/268-meditacao-sobre-o-rosario-iii